Os escritórios de bancos que são verdadeiros museus de arte

Os escritórios de bancos que são verdadeiros museus de arte
André Ítalo Rocha |

Há uma lista seleta de escritórios em São Paulo que fazem inveja a muitas galerias e museus de arte.

São as salas e corredores usados por grandes bancos para exibir parte das coleções de arte acumuladas ao longo de décadas por seus fundadores e acionistas – um acervo que vai de Candido Portinari a Tarsila do Amaral e serve para o deleite dos funcionários que têm o privilégio de trabalhar sob o mesmo teto que essas peças.

A lista de bancos inclui nomes como o Itaú, o Santander, o UBS e o Safra. São instituições que fazem jus à tradição do setor financeiro de ser o que mais põe dinheiro em arte e cultura, tanto no Brasil quanto em outros países. Lá fora, o JP Morgan tem também um acervo de respeito, assim como as matrizes do UBS e do Santander.

Hoje, a maior parte dos acervos dos grandes bancos com operação em São Paulo é fruto de uma série de fusões e aquisições que foram sendo feitas pelo setor ao longo da história deles.

Além das artes que decoram os escritórios e as agências bancárias (as que ainda existem), outras são emprestadas a museus ou ficam expostas em instituições culturais fundadas pelos próprios bancos, como o Itaú Cultural e o Farol Santander – na ideia de que arte não é para estar guardada e sim para ser vista.

Alfredo Setubal, o mentor por trás do acervo do Itaú, acredita que o investimento do setor em arte reflete um esforço dos bancos em mostrar aos clientes uma imagem de solidez e sofisticação em seus espaços.

“Em áreas dedicadas a atender os clientes de alta renda, os ambientes são mais requintados, e a arte entra nesses ambientes,” ele disse ao Metro Quadrado.

E há ainda um efeito positivo nos próprios funcionários. Segundo Setubal, tem sido comum eles pedirem a inclusão de obras de arte nos espaços quando estão mudando de andar ou quando algum pavimento está sendo reformado.

“Isso não acontecia há 10 ou 15 anos. Mas agora as pessoas pedem, porque aprenderam a conviver e gostam muito,” ele disse.

Para os funcionários que quiserem saber mais sobre as obras expostas, há um QR Code do lado que permite o acesso a todas as informações e uma breve explicação.

O acervo total do Itaú soma 15,7 mil itens, que incluem artes plásticas, incluindo pinturas, desenhos, esculturas e instalações, além de uma coleção de numismática (moedas e notas históricas) e cartografias.

Nos escritórios do banco, há 57 obras na sede do Itaú BBA na Av. Faria Lima, 969 no conjunto de edifícios do banco no Jabaquara e 302 no prédio da Itaúsa na Av. Paulista, que também abriga o escritório da Dexco, uma das investidas da holding do banco.

A preferida de Setubal é um painel de 27 azulejos da artista Adriana Varejão que está no hall do Itaú BBA, e que ele acredita ser a obra de maior valor do acervo.

Azulejão, 2000 - Adriana Varejão (acervo do Itaú). Imagem: Sérgio Guerrini

“Se fôssemos vender a obra inteira, talvez valesse algo entre R$ 50 e R$ 60 milhões,” ele disse.

Entre outras favoritas, ele também destaca a obra de 2017 de Vânia Mignone, que está em outro hall do Itaú BBA. “É uma obra muito silenciosa,” diz.

Sem título, 2017 - Vânia Mignone (acervo do Itaú). Imagem: Humberto Pimentel

Já no prédio da Itaúsa na Paulista, uma das que ele mais admira é uma escultura de uma indígena, feita por Victor Brecheret. O próprio prédio, aliás, é uma obra a ser apreciada – um projeto de Rino Levi tombado pelo estado de São Paulo.

E o acervo não inclui apenas o que foi absorvido com aquisições de outros bancos. Há também um esforço para comprar novas obras, inclusive de artistas contemporâneos, que substituem peças que são doadas de tempos em tempos para museus (algumas delas de agências que foram fechadas).

Nu Feminino [Índia], 1942 - Victor Brecheret (acervo do Itaú). Imagem: Humberto Pimentel

Uma das últimas aquisições do Itaú foi um mapa do Rio do século XVII, o mais antigo da cidade, que estava “perdido” em um livreiro da Inglaterra e que deve compor a coleção Brasiliana, exposta no Itaú Cultural.

Um outro xodó de Setubal é uma pintura que o francês Arnaud Julien Pallière fez de São Paulo no século XIX a pedido de D. Pedro I, que queria uma representação de várias cidades brasileiras para ter no seu palácio. Esta é a pintura mais antiga a retratar São Paulo e também está exposta no Itaú Cultural.

Ele estima que o acervo total do banco deve valer algo entre US$ 100 milhões e US$ 150 milhões, mas reconhece que, por envolver obras de relevância intangível, essa é uma conta difícil de fazer.

“Essa pintura de São Paulo, por exemplo, tem um valor incalculável.”

No Santander, o acervo soma 1763 obras, de diferentes linguagens, incluindo artes visuais, tapeçaria, documentos históricos e numismática.

A coleção inclui obras compradas pela instituição ao longo do tempo, mas também peças incorporadas por meio de 74 fusões e aquisições, como os acervos do Banespa, do Banco Real e do primeiro banco privado do País, o Banco da Província do Rio Grande do Sul.

Sem título, 1989 - Amilcar de Castro (acervo do Santander). Imagem: Foto Motivo Processamento Imagem e Comunicação

Desse total, 329 estão na sede do Santander na Av. Juscelino Kubitschek, como alguns trabalhos de Joan Miró, Cícero Dias e Candido Portinari.

“Nós temos um book com a nossa coleção e os executivos costumam olhar o book para pedir determinadas obras para as suas salas,” Bibiana Berg, a head de experiências, cultura e impacto social do Santander Brasil, disse ao Metro Quadrado.

O CEO Mario Leão, por exemplo, recentemente fez questão de incluir na sua sala a obra Revoada, uma fotografia feita pela artista Flavia Junqueira.

Bibiana diz que é comum o banco ser procurado por outras empresas que também querem ter obras nos escritórios ou que estão montando algum instituto cultural.

“São companhias que às vezes adquirem obras e não sabem exatamente o que fazer, e nós ensinamos como preservar, cuidar e expor.”

Urihi-a, 1974 - Claudia Andujar (acervo do Santander). Imagem: Foto Motivo Processamento Imagem e Comunicação.

No mercado de escritórios, já há casos em que o investimento em obras de arte funciona também como um esforço para atrair os trabalhadores ao modelo presencial.

Na reforma do prédio que a XP vai ocupar na Chácara Santo Antônio, feita depois da pandemia, várias obras foram incluídas para tornar o ambiente mais convidativo.

O antigo Luna Corporate – rebatizado de Romeo&Julieta após a reforma – passou por uma intervenção artística na fachada do artista indígena brasileiro Pankaruru, e na área comum há uma obra de 15 metros do escultor belga Arne Quinze. No lobby há ainda trabalhos de Pierre Verger e Rubem Valentim, além de uma tapeçaria de Mariana Tanajura.

A Autonomy Capital, responsável pelo projeto, deu ao prédio o slogan de “love your mondays”, com a ideia de o escritório ser um “convite ao convívio.”

“A maioria dos escritórios toma a energia das pessoas, e aqui nós queremos que o escritório dê energia às pessoas,” disse David Ventoso, o CEO da Autonomy.

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