MADRI — Durou três décadas o reinado das hoteleiras espanholas em Cuba.
As principais redes ibéricas – como Meliá, Iberostar e Barceló – anunciaram nas últimas semanas que estão encerrando suas operações na ex-colônia caribenha devido ao embargo cada vez mais apertado dos EUA ao regime cubano e às próprias empresas.
O anúncio encerra um acordo de 1990 entre Gabriel Escarrer, o fundador do Meliá, e Fidel Castro, que permitiu à família espanhola abrir 34 hotéis no país e dominar o mercado junto com outras redes ibéricas, que operavam em sociedade com empresas estatais.
A rede terá seu último dia de operações na próxima sexta, 24 de julho.
“Esta decisão é consequência das significativas dificuldades operacionais, legais, econômicas e financeiras que têm afetado persistentemente o ambiente no país,” o Meliá disse à Comissão Nacional do Mercado de Valores Mobiliários espanhola.
Segundo a hoteleira, hoje comandada pelo filho de Gabriel, Gabriel Escarrer Jaume, tais condições impossibilitam “uma estabilidade operacional mínima”.
As ações do Meliá cederam cerca de 15% no último mês, mas sobem 36% em 12 meses.
Oficialmente, o governo dos EUA pressionava as hoteleiras espanholas com multas e processos – por conta da conexão com o regime – mas a economia cubana já estava estrangulada, e o negócio se tornou inviável antes disso.
Com acesso restrito ao petróleo, os hóspedes mal conseguiam chegar; as redes deixaram de conseguir abastecer seus resorts; os preços e as ocupações foram ao chão; e as operações cubanas deixaram de ter viabilidade financeira.
No primeiro tri, a receita por quarto disponível do Meliá em Cuba foi de € 34,4 por dia, 8,6% abaixo do ano anterior. A média global da rede é de € 84.
A taxa de ocupação de suas propriedades cubanas foi de 34,1%, bem abaixo da média do seu portfólio (58,8%).
A rede hoteleira já fechava gradualmente seus estabelecimentos, operando com apenas 50% de sua capacidade instalada desde o final de março.
No início de junho, a familiar Escarrer encerrou os contratos de 15 hotéis. E agora comunica o fim de todas as operações. (A rede tinha 34 hotéis na ilha, mas alguns já estavam desativados.)
Nestes 35 anos, o negócio cresceu em épocas em que o embargo estava mais frouxo e chegou a fazer sentido para as empresas em algum momento.
Mas o regime não caiu e os Estados Unidos não aliviaram a coleira, então o país quebrou, deixando a população e os prestadores de serviço sem acesso a combustível, luz e comida em diversos momentos.
Em 2024, Cuba já tinha esses traços. Cidades com serviços básicos intermitentes e resorts com acesso limitado a comida. A economia se dolarizava e pequenas empresas familiares de varejo passaram a ser permitidas.
O dólar e o euro tinham a mesma cotação, era tudo “moeda forte”. O slogan da operadora estatal de telecom era “obrigado por nos escolher”.
Em janeiro de 2025, os EUA começaram o embargo “total pressure”, impedindo ativamente a entrada de dólares e estrangulando a economia cubana enquanto implementavam sanções a líderes do regime e empresas estatais.
O responsável pela escalada recente nos conflitos é o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que tem defendido que Cuba apoiou “uma onda sem precedentes de terrorismo de esquerda nos Estados Unidos” nas últimas décadas.
Outras redes internacionais como a Grand Muthu, que pertence à americana MGM, ainda operam em Cuba em alguma escala.
O Meliá vale € 2,2 bilhões.




