Nos empreendimentos imobiliários de altíssimo padrão, as pedras ornamentais brasileiras vêm ocupando um espaço cada vez maior.
Os arquitetos e designers de interiores – habituados a trabalhar com granito, mármore e travertinos – estão começando a experimentar novas variedades em seus projetos, valendo-se do fato de que o Brasil tem uma das maiores diversidades geológicas do mundo.
O País é o quinto maior produtor global de rochas ornamentais, atrás apenas de China, Índia, Turquia e Irã. São mais de 1200 tipos, entre granitos, mármores, quartzitos, ardósias, ônix, limestone e pedra-sabão.
Um dos marcos desse novo momento foi o uso de rochas brasileiras no projeto do Rosewood em São Paulo, assinado pelo arquiteto francês Philippe Starck, que ajudou a dar visibilidade ao setor, atraindo também as incorporadoras de luxo em São Paulo.
“Agora as empresas já colocam no memorial descritivo dos lançamentos que o lobby é em quartzito brasileiro ou que a bancada é de pedra natural, porque sabem que é isso que dá valor real e perenidade ao imóvel,” a arquiteta Vivian Coser disse ao Metro Quadrado.

Inspirada por nomes como Mies van der Rohe, Carlo Scarpa e Piero Portaluppi, Vivian atua há mais de 25 anos no segmento e é uma das principais entusiastas da pedra natural nos projetos de arquitetura e interiores.
“Eu vi um mar de oportunidades, num setor extremamente carente de arquitetura e design,” disse Vivian.
Ao longo dos anos, a arquiteta desenvolveu um trabalho próximo à indústria e mantém uma pesquisa contínua com produtores para identificar as rochas mais adequadas a cada aplicação.
Recentemente, ela incorporou a sua curadoria de pedras brasileiras em projetos de alto padrão desenvolvidos para Benx, Cyrela e RFM.
Segundo a arquiteta, poucos materiais se equiparam à pedra natural em qualidade e durabilidade. “Tudo que é de melhor no mundo com relação à arquitetura é feito em pedra. Só ela consegue resistir ao tempo. Isto é valioso,” disse.
Parte do esforço para ampliar o mercado nacional passa por feiras do setor, como a Cachoeiro Stone Fair e a Marmomac Brasil, comandadas pela empresária Flávia Milaneze, da Milanez & Milaneze.
A Marmomac foi criada com a intenção de aproximar a indústria de arquitetos e designers, além de construtoras e incorporadoras. Na última edição, Flávia estima que 10% do público já era formado por incorporadoras.
“Antes da pandemia, o Brasil não usava o quartzito. Esses materiais que antes eram exportados começaram a ser consumidos no mercado interno recentemente,” disse Flávia ao Metro Quadrado.

Por trás desse avanço está um processo de modernização tecnológica que transformou o setor nas últimas décadas.
A introdução de maquinário de ponta, como os teares multifios diamantados de alta velocidade, reduziu etapas de produção e estimulou ainda mais as exportações do Brasil, que deixou de vender apenas blocos brutos para negociar com o exterior produtos mais elaborados, como chapas polidas.
No ano passado, as exportações do setor faturaram US$ 1,48 bilhão, um aumento de 17,5% em relação ao ano anterior, segundo a Abirochas (Associação Brasileira da Indústria de Rochas Ornamentais).
Os Estados Unidos concentram 59% das exportações brasileiras. Em 2025, no entanto, alguns tipos de mármore e os chamados “granitos verdadeiros” foram atingidos pelas sobretaxas do governo americano.
O quartzito, que é uma rocha nobre e resistente e principal material de exportação do setor, ficou de fora – o que ajudou a preservar o ritmo de crescimento.
Essa evolução do mercado ocorreu de forma gradual, com incentivo da Abirochas e da ApexBrasil.
Além de importar equipamentos de corte de alta precisão, o Brasil também vem desenvolvendo uma cadeia local de fornecedores. Hoje, algumas máquinas já são produzidas nacionalmente.
“Nós conseguimos sair de um estágio muito atrasado tecnologicamente na década de 1990 para um polo industrial muito moderno hoje,” Reinaldo Dantas Sampaio, o presidente da Abirochas, disse ao Metro Quadrado.
Minas Gerais, Bahia e Ceará são os estados que se destacam na produção de pedra natural. Mas é o Espírito Santo que lidera as exportações brasileiras: 78,5% do total exportado vem do estado, que concentra pedreiras e boa parte do parque industrial do setor.
Lá fora, a pedra brasileira pode ser encontrada em lojas de luxo da Quinta Avenida, em Nova York, e da Via Montenapoleone, em Milão. A Tiffany, por exemplo, ajudou a popularizar a amazonita, extraída na Paraíba. A pedra de cor azul hoje é aplicada em lojas da marca pelo mundo todo — e também aparece em joias.
Esse avanço tecnológico do setor acabou permitindo usos além dos revestimentos. Renata Malenza, à frente da Brasigran, vem incentivando a aplicação das pedras naturais no design de produto.
A empresa de mineração exporta quase 70% do que produz, mas parte das pedras naturais já está sendo destinada ao design autoral. Ela hoje trabalha ao lado de designers brasileiros premiados, como Lucas Recchia.
De acordo com ela, o avanço tecnológico abriu novas possibilidades, mas também expôs obstáculos técnicos.
“As máquinas italianas importadas são normalmente usadas em mármores, que são mais maleáveis. Então existe um desafio natural de trabalhar quartzito e granito com o mesmo maquinário. Quando pensamos em móveis, esse processo fica ainda mais complexo,” disse a empresária.
Na avaliação de Reinaldo, um dos gargalos para a popularização do material no Brasil está nas marmorarias, que fazem a interface direta com o consumidor.
“Muitas vezes, os marmoristas trabalham sempre com os mesmos materiais usando tecnologias muito simples, o que dá a falsa impressão no consumidor de que o setor não é tão tecnológico e avançado como de fato é,” disse.
Para ele, o desenvolvimento de tecnologias que permitam criar uma “maleabilidade aparente” nas pedras, com texturas, nuances e curvas, é também um dos desafios atuais da indústria.
Além disso, Reinaldo avalia que a longevidade das rochas naturais — maior do que dos materiais sintéticos — favorece sua inserção em agendas de sustentabilidade.
“A pedra tem a virtude de, ao envelhecer, se tornar nobre em vez de se degradar. E ela tem melhor performance do que todos os outros revestimentos,” disse.




