Opinião/ A construção industrializada precisa de um comprador-âncora?

A construção industrializada precisa de um comprador-âncora?
|

A construção industrializada não precisa provar que funciona, mas sim que pode ter escala.

Em projetos isolados, o modelo já mostrou capacidade de reduzir prazo, aumentar previsibilidade, diminuir desperdício e deslocar parte da complexidade do canteiro para a fábrica.

Mas a indústria não vive de caso emblemático, e sim de vive de volume, repetição e demanda recorrente.

Por isso, a pergunta mais importante não é se a construção industrializada é melhor do que a tradicional.

A pergunta é outra: quem vai comprar o suficiente para fazer essa cadeia amadurecer?

Nos Estados Unidos, um artigo recente da Thesis Driven trouxe uma provocação interessante: o Department of Defense pode se tornar o comprador-âncora que a construção modular americana sempre precisou.

Toda tese de industrialização parte de uma premissa simples: construir em fábrica só faz sentido quando há repetição suficiente.

Se cada projeto for único, se cada contrato exigir uma solução totalmente diferente e se a demanda for intermitente, o ganho industrial desaparece.

É por isso que a construção industrializada costuma enfrentar um paradoxo.

O primeiro projeto raramente é o melhor: carrega custo de adaptação, erro de especificação, ajustes de projeto, resistência de fornecedores e insegurança de financiadores. O benefício aparece quando o sistema se repete.

Por isso, a figura do comprador-âncora é tão importante, por reduzir o risco mais sensível da indústria nascente: o risco de demanda.

Quando existe um agente capaz de contratar volume, repetir tipologias e dar previsibilidade para fornecedores, a indústria consegue investir, errar menos, melhorar processos e reduzir custos ao longo do tempo.

Nos Estados Unidos, o DoD tem um problema concreto: precisa renovar alojamentos militares, reduzir prazos, controlar custos e melhorar a infraestrutura disponível para soldados.

A solução tradicional é lenta demais para a urgência operacional. E, nesse contexto, o DoD começa a testar novas formas de construção.

Em Fort Bliss, no Texas, o Exército americano iniciou a construção de 10 edifícios impressos em 3D, cada um com capacidade para abrigar até 56 soldados.

O contrato de US$ 62,8 milhões foi concedido à ICON, e a previsão divulgada pelo Army é construir os 10 alojamentos em cerca de seis meses.

Esse é um sinal importante. Não porque impressão 3D será necessariamente a tecnologia dominante. Mas porque mostra uma instituição pública usando seu poder de compra para testar novos modelos produtivos em escala inicial.

A analogia com tecnologia é inevitável. A internet, o GPS e diversas tecnologias fundamentais da economia digital tiveram relação direta com financiamento, demanda ou interesse militar em algum momento de sua formação.

Não nasceram como produtos de consumo. Nasceram como infraestrutura estratégica.

A provocação é boa: será que a construção industrializada precisa de um ciclo parecido?

Talvez sim. Não porque o setor militar seja o único caminho, mas porque conta com características raras: demanda recorrente, padronização de tipologias, urgência operacional, orçamento institucional e capacidade de coordenar especificações.

Para uma fábrica, isso vale muito.

O Brasil já viu esse filme – só que fora do residencial.

Aqui, a construção industrializada avançou primeiro onde o cliente entendia a obra como infraestrutura crítica.

A trajetória da Brasil ao Cubo é um bom exemplo. A empresa nasceu associada à construção modular e passou a acessar grandes clientes industriais, corporativos e hospitalares. Clientes como Ambev, Vale, Albert Einstein, Inpasa.

A escala não veio apenas da tecnologia. Veio da combinação entre capacidade industrial, clientes grandes, contratos relevantes e demanda que valorizava prazo e previsibilidade.

Uma mineradora, uma indústria de celulose, uma cervejaria ou um hospital não olha a construção apenas como produto imobiliário. Olha como infraestrutura para operação. Se a obra atrasa, a operação atrasa. Se a implantação falha, a receita, a produção ou o atendimento são impactados.

Por isso, nesses segmentos, a construção industrializada encontra uma proposta de valor mais evidente: construir rápido, com menos interferência, mais controle e maior previsibilidade.

No residencial, a equação é mais difícil. A habitação é mais pulverizada. O comprador final raramente valoriza o método construtivo. O incorporador carrega risco de aprovação, vendas, financiamento, obra e percepção de produto.

Além disso, o residencial brasileiro ainda é marcado por customização, diferenças regionais e dependência do modelo tradicional de canteiro.

Por isso, a construção industrializada residencial talvez precise de outro tipo de âncora.

Não necessariamente uma empresa específica. Pode ser um programa habitacional, uma carteira pública, uma grande plataforma de locação residencial, uma incorporadora com tipologias repetíveis ou uma combinação desses agentes.

De certa maneira, o próprio Minha Casa Minha Vida já cumpriu uma função parecida para o setor de construção nos últimos quase vinte anos.

O programa criou demanda, padronizou faixas de produto, viabilizou financiamento, formou fornecedores e sustentou uma parte relevante da produção habitacional brasileira.

Ele não industrializou a construção por si só. Mas mostrou como uma política de demanda recorrente pode reorganizar a oferta.

Agora, a pergunta é se o mesmo raciocínio pode ser aplicado à industrialização.

O anúncio do Constrói Mais Brasil é importante justamente porque tenta atacar o problema de forma sistêmica.

Segundo o MDIC, a estratégia terá quatro eixos: formação e requalificação profissional, inovação e desenvolvimento tecnológico, adequação de instrumentos financeiros e fortalecimento do papel da administração pública como indutora da demanda por sistemas construtivos industrializados.

Esse último ponto é o coração da tese.

Se a administração pública vira indutora de demanda, pode fazer mais do que comprar obras, mas também criar o ambiente para a cadeia industrializada ganhar escala.

A industrialização não é apenas trocar alvenaria por módulo. É coordenar projeto, norma, orçamento, contratação, financiamento, fiscalização e manutenção.

Sem isso, a fábrica vira apenas um canteiro coberto.

Com isso, a construção pode começar a se comportar mais como indústria de verdade: com catálogo, repetição, melhoria contínua, redução de desperdício, controle de qualidade e ganho de produtividade.

O comprador-âncora não precisa ser sempre militar. Pode ser público, privado, habitacional, industrial ou institucional. Mas alguém precisa assumir o papel de organizar a demanda antes que a cadeia esteja completamente madura.

É isso que o DoD começa a testar com alojamentos militares. É isso que empresas como a Brasil ao Cubo encontraram em grandes clientes industriais. É isso que governos estaduais começam a ensaiar com moradias modulares. E pode ser isso que o Brasil começa a desenhar no residencial com MCMV, Constrói Mais Brasil e novas políticas públicas de demanda.

Bruno Loreto é sócio da Terracotta Ventures.

Siga o Metro Quadrado no Instagram

Seguir