As cidades vão disputar os mais jovens, diz este urbanista

As cidades vão disputar os mais jovens, diz este urbanista
Rafael Balago |

PORTO ALEGRE – O envelhecimento da população em várias partes do mundo, do Ocidente à China, levará as cidades a disputarem os mais jovens, avalia o urbanista francês Alain Bertaud.

Na Europa, por exemplo, a idade média da população já está em 43 anos. Na América do Norte, 38. No Brasil, 35.

E em países como Japão e Tailândia, onde a população total vem encolhendo, metrópoles como Tóquio e Bangcoc seguem crescendo, o que colabora com o esvaziamento do interior.

“As pessoas jovens não gostam de viver em uma cidade pequena onde os bares e restaurantes fecham às 19h,” Bertaud disse em Porto Alegre na sexta-feira, o primeiro dia do Fórum Cidades Responsivas.

Pesquisador do Marron Institute of Urban Management, da New York University, Bertaud foi planejador urbano do Banco Mundial e escreveu o livro Ordem Sem Design: Como os Mercados Moldam as Cidades.

“O prefeito de Toyama, no Japão, me contou que estava desesperado pra abrir novos bares e restaurantes ou museus, para manter as pessoas jovens,” disse. “Até agora ele não obteve sucesso.”

Para Bertaud, as cidades devem parar de disputar empresas com base em isenções fiscais, o que ele vê como algo “terrível”, e, em vez disso, criar estratégias para atrair os recém-formados, que são a força de trabalho mais buscada.

Para que os jovens fiquem nas cidades, no entanto, é preciso ter casas com preços que eles consigam pagar.

“Vancouver é uma cidade maravilhosa, mas terrível em moradias acessíveis. As pessoas que têm um bom emprego são obrigadas a ir embora porque não conseguem encontrar uma casa. É um desastre feito pelo homem, não é como uma enchente,” disse.

Segundo o pesquisador, se não houver casas para os profissionais que estão entrando no mercado de trabalho, eles vão ter de se mudar e podem ir para áreas mais distantes nos subúrbios. “Assim, serão menos produtivos,” ele disse, citando os longos tempos de deslocamento. 

Bertaud defende ainda medidas para repovoar o centro das cidades, como no caso de São Paulo, onde esteve pela última vez há três anos.

“Abandonar um centro como o de São Paulo, especialmente com a herança que tem de Art déco, é algo que precisa ser evitado,” ele disse ao Metro Quadrado após sua apresentação no evento.

“As cidades precisam intervir para prevenir este declínio. Quando isso vai muito longe, é difícil reverter, mas pode ser feito.”

Bertaud comentou ainda a proposta de mudança da sede do governo estadual para o centro paulistano. 

“Ao criar um novo centro administrativo, você terá de deslocar algumas pessoas e recriar moradias acessíveis para pessoas de baixa renda. E essa acessibilidade não virá de subsídios, mas da remoção das barreiras que impedem o setor privado de fazer isso,” afirma.

Bertaud diz que não há soluções prontas para os problemas urbanos e que é preciso realizar testes reais.

“Quando os políticos decidem uma estratégia, ela precisa ser testada em campo, não no laboratório. Se em um ou dois anos, seu objetivo não é atingido, é preciso admitir os erros e mudar,” diz.

“Eu mesmo tenho esqueletos no meu armário e aprendi com eles.”

Siga o Metro Quadrado no Instagram

Seguir