Construir está caro? Arthur Casas propõe olhar para o passado

Construir está caro? Arthur Casas propõe olhar para o passado
André Ítalo Rocha |

A industrialização da construção civil – um tema que ganhou força com a escassez e o encarecimento da mão de obra – está longe de ser uma ideia nova no Brasil.

Dos anos 1930 aos anos 1980, vários projetos no País foram acelerados graças a soluções industrializantes que tornaram as obras mais eficientes.

A própria construção de Brasília é um exemplo. O período de apenas quatro anos para erguer a cidade não se deve somente à migração dos candangos, mas também à adoção de materiais como estruturas metálicas e peças pré-fabricadas.

Mas as razões que impulsionaram a industrialização no século passado foram outras.

Mão de obra havia de sobra. A rapidez veio para suprir o boom populacional que as maiores capitais viviam (como São Paulo) e para proteger os construtores da inflação que traumatizou o País durante décadas.

De lá para cá, o mercado viveu um vazio de novas soluções, e só agora a industrialização está voltando à pauta para valer, com a já tão falada falta de profissionais nos canteiros, que sumiram porque uma parte da nova geração está mais escolarizada e outra parte prefere trabalhar em apps como Uber e iFood.

Segundo um estudo do Sinduscon-SP em 22 estados, a idade média dos trabalhadores da construção subiu de 38 para 41 anos entre 2016 e 2024, e a tendência é que siga aumentando.

Para ajudar a acelerar a industrialização, o arquiteto Arthur Casas criou um instituto que reúne um banco de soluções do passado que ainda servem para novos projetos, ou no mínimo podem ser uma referência para inspirar outros caminhos.

Depois de dois anos de pesquisa, o Instituto Arthur Casas de Arquitetura e Inovação (IACAI) já tem 39 projetos catalogados em seu site, que datam de 1935 a 1989, em que vários são de autoria de alguns dos mais importantes arquitetos do País, como Rino Levi, Paulo Mendes da Rocha e Oscar Niemeyer.

Boa parte conta com métodos construtivos esquecidos ou com soluções climáticas mais baratas que foram deixadas de lado em razão da popularização do ar-condicionado.

Cada um está apresentado com suas especificações, profissionais envolvidos, imagens, aspectos inovadores e possibilidades de adaptação ou reinterpretação. E os concebidos na era pré-3D foram reproduzidos em 3D para facilitar a visualização.

“Esse banco de soluções foi pensado para ajudar as novas gerações de arquitetos na hora de desenvolver os seus projetos, já que os mais velhos já estão viciados,” Arthur Casas disse ao Metro Quadrado.

Um desses projetos é o do edifício R3 (de autoria dos arquitetos Milton Ramos e Aleixo Furtado), que foi construído em Brasília em 1972 e usa elementos pré-fabricados de concreto.

Na página do projeto, o IACAI mostra que o concreto pré-moldado pode reduzir o prazo de execução em até 73%, elevar a produtividade em até 82% e reduzir o retrabalho em até 66%. 

Um outro exemplo é a Casa Gerassi, um projeto de Paulo Mendes da Rocha na Vila Madalena que foi erguido em apenas quatro dias, em 1988, por também usar elementos pré-fabricados.

Os projetos foram reunidos a partir de uma inquietação de Casas, que se formou em 1983 e entende que a sua geração contribuiu timidamente para a industrialização.

“A arquitetura cresceu muito esteticamente desde então, mas muito pouco em métodos construtivos, enquanto as gerações anteriores à minha pensavam muito em sistemas,” ele disse.

O engenheiro Luiz Henrique Ceotto, professor da Poli da USP e conselheiro do instituto, diz que a tendência de industrialização foi interrompida nos anos 1990 porque faltou uma política estatal similar à que modernizou o agro brasileiro.

“As empresas fazem um grande trabalho, mas não é suficiente. E tudo o que é deixado à própria sorte tende a ir de mal a pior,” ele disse ao Metro Quadrado.

Para ele, o Estado deveria incentivar a pesquisa, desonerar a industrialização e aproveitar que o País tem um programa habitacional do tamanho do Minha Casa Minha Vida para encurtar o processo.

“Agora nós estamos voltando a falar disso, mas se não houver um approach estatal, será um desperdício.”

Casas diz que os projetos que simula com técnicas de industrialização ainda são mais caros que os convencionais – e que por isso é preciso ampliar o debate público.

No IACAI, ele pretende adicionar uma média de cinco projetos por mês ao banco, inicialmente resgatando as soluções do passado mas depois também trazendo novas ideias.

Um outro projeto que o instituto abraçou foi a digitalização de parte do acervo do arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, conhecido por suas contribuições pioneiras em tecnologias construtivas.

O IACAI por enquanto é uma plataforma online e gratuita, mas Casas pretende em algum momento ter também uma sede física.

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