Num Centro em retomada, um empresário do Copan pondera o futuro

Num Centro em retomada, um empresário do Copan pondera o futuro
Rafael Balago |

Para Toninho, as filas do cinema que se estenderam recentemente pelas galerias do Copan são um bom sinal. 

Um dos donos do Café Floresta, instalado ali desde 1976, ele sabe que mais frequentadores vão melhorar os negócios. 

A volta do público também lhe traz lembranças do começo de sua vida, quando as galerias do prédio viviam cheias.

Hoje com 67 anos, Antonio Alberto Sanches Pereira administra há 41 o café, o ponto comercial mais antigo do Copan em operação.

Bem na entrada do edifício, o Floresta acompanhou as diversas mudanças de um dos prédios-símbolo da cidade, que chegou aos 60 anos em 2026.

“Antes, a maioria do público vinha dos escritórios. Agora, estamos tendo bastante movimento nos fins de semana. É outro público que está rodando,” Toninho disse ao Metro Quadrado.

No Floresta, não há bancos nem mesas. Os clientes precisam tomar o café em pé, no balcão. 

Nos anos 1970, o Centro era um dos principais endereços dos escritórios em São Paulo e milhares de funcionários circulavam pelas ruas.

“Antes, eu jamais teria tempo de ficar batendo papo, pois já teriam três ou quatro atrás de você querendo pedir. Se tivesse bancos, ia demorar mais, porque as pessoas iriam se acomodar e não dar espaço aos outros,” diz.

O Floresta foi um dos primeiros da cidade a servir espresso, e isso fazia com que muita gente fosse até lá para tomar um café diferente, caminhando pelos calçadões recém-criados na gestão do prefeito Olavo Setúbal (1975-1979).

Os calçadões, no entanto, não evitaram o esvaziamento do Centro. Na mesma época, a avenida Paulista se tornou o polo financeiro da capital, e as grandes empresas levaram suas sedes para lá.

Ao mesmo tempo, o Copan entrou em decadência, marcado por problemas de manutenção e a presença de prostitutas e usuários de drogas em parte das unidades. 

Em 1986, o cinema de 1.200 lugares do Copan fechou. “Lembro quando exibiram o último filme. Acho que foi ‘Amadeus’. As filas eram astronômicas, davam três voltas na galeria,” diz Toninho. 

Mesmo com as crises e queda nas vendas, que chegou a 50%, o Floresta permaneceu. Ao longo das décadas, manteve a aparência original, vendendo o mesmo café em xícaras de porcelana marrom escura, feitas sob encomenda para manter a tradição. 

Hoje, são servidas cerca de 150 xícaras por dia. 

O caixa tinha a regra de não aceitar cartões de crédito, uma determinação de José Augusto, pai de Toninho, que vigorou até sua morte, em 2022.

O pai e o tio de Toninho compraram o café em 1979. De origem portuguesa, a família Pereira possuía outros negócios alimentares, como a pizzaria Tramontana, na avenida Santo Amaro, e a padaria ABC, na rua Domingos de Moraes. 

Havia, ainda, a fábrica de biscoitos ABC, cuja praça em frente, a Teodoro de Carvalho, leva o nome de um tio-avô de Toninho. 

O negócio hoje pertence a Toninho, seus dois irmãos e seu tio. Eles se revezam no balcão ao longo do dia. Seu tio, Adelino, abre as portas às 6h. Toninho entra de tarde e fica até fechar, por volta das 22h. 

Nestes 41 anos, Toninho criou o hábito de conversar e apoiar os moradores e visitantes. 

“Ele ajudou a cuidar dos meus filhos,” diz Gutemberg Ferro. Um geólogo de Mococa, cidade do interior paulista, ele comprou uma unidade no Copan nos anos 2000, que foi moradia de seus filhos enquanto eles estudavam no Mackenzie. Até hoje, para no café quando vem a São Paulo. 

“Quem não tem dinheiro, conta história. Como eu não tenho dinheiro, vou contar histórias para atrair a pessoa. E são pessoas conhecidas há 20, 30 anos,” diz Toninho.

Um dos moradores que mais o marcaram foi o escritor Plínio Marcos. “Eu brincava que ele ia na televisão com qualquer roupa, e ele dizia que se eles quisessem roupa melhor, que pagassem,” afirma. 

A partir do fim dos anos 1990, o Copan entrou em rota de recuperação, sob comando do síndico Affonso Oliveira. Ele ficou no cargo de 1993 até sua morte, em 2025, aos 86 anos.

“A gente conhecia isso aqui como um treme-treme, uma coisa totalmente degradada. Tinha gente boa, gente legal, mas pessoas duvidosas,” diz Toninho.

“Aos poucos, o síndico foi consertando, chamando os proprietários, fazendo com que não alugasse para certas pessoas. Ele fez um grande reparo de hidráulica e elétrica, deixou sem sujeira. Isso ajudou bastante,” afirma. 

O Copan também foi beneficiado pelas novidades do entorno, como o sucesso do Bar da Dona Onça, de Janaína Torres Rueda, aberto no térreo do prédio em 2008. 

Janaína e seu então marido, Jefferson, deram outro salto importante ao criar, em 2015, a duas quadras dali, a Casa do Porco, restaurante incluído no Guia Michelin, que virou um ímã para turistas.

Além disso, o avanço do Airbnb renovou o público. Há tantos apartamentos do prédio na plataforma que foi montado um escritório de boas-vindas para os viajantes ao lado do Café Floresta.

Toninho costuma dar dicas de passeios pelo Centro aos turistas e indica locais como o Teatro Municipal e a Pinacoteca. 

Ele mesmo, no entanto, já não consegue passear muito, pois tem lesões por estresse na planta dos pés, fruto de tantos anos andando pelo balcão.

O público a passeio se tornou o principal frequentador especialmente depois da pandemia. A adoção do home office esvaziou ainda mais os escritórios do centro.

A redução de funcionários do Bradesco, dono do edifício Nova Central, em frente ao Copan, foi sentida no Floresta. 

No ano passado, o banco anunciou uma reforma do prédio, para voltar a receber seus funcionários. 

Para o futuro, Toninho espera que o novo cinema do Copan, patrocinado pelo Nubank, volte a encher as galerias do prédio, assim como seu balcão. 

“Eu gostaria muito de ter saúde e ter bastante tempo para ver meus filhos e netos deixarem isso aqui mais moderno, mantendo a mesma qualidade,” diz. 

“Se você reclamar do preço, eu vou brincar com você. Se reclamar da qualidade, eu desmonto a máquina.”

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