Isabel Castilla tem no currículo um dos projetos de retrofit urbano mais celebrados do mundo, o High Line de Nova York.
A arquiteta liderou o desenho e a implantação de três trechos do parque, incluindo a extensão até o Moynihan Train Hall, construída em meio à pandemia e inaugurada em 2023.
Para ela, a crise do coronavírus mudou a forma como as pessoas se relacionam com os parques.
"Há muito mais atividades acontecendo ao ar livre. Antes, muitos parques eram destinados a passeios, visitas de lazer ou esportes, mas agora se tornaram verdadeiros centros da vida social,” ela disse ao Metro Quadrado.
“Isso expandiu a forma como projetamos parques, oferecendo oportunidades para todos esses outros usos, antes menos comuns.”

Isabel – que também é a representante de arquitetura paisagística (landscape architecture) na Public Design Commission da Prefeitura de Nova York – vai participar no fim de agosto do 4º Encontro Cidades Responsivas, em Porto Alegre.
Em sua apresentação, ela falará sobre o High Line, que teve o Sesc Pompeia como uma de suas inspirações, e outros projetos de parques urbanos em estruturas antes abandonadas, como o The Underline, em Miami, que passa embaixo de uma linha férrea.
Na entrevista, ela falou sobre as razões do sucesso do High Line, dos novos smart parks e dos desafios de criar espaços de lazer nas cidades.
Em São Paulo, a ideia do High Line ajudou a impulsionar a ideia de transformar o Minhocão em um parque. Como avalia este e outros projetos similares pelo mundo?
O High Line é um exemplo de como se pode reutilizar a infraestrutura de forma criativa para gerar espaços públicos, mas nenhum espaço deve ser uma cópia completa dele.
O High Line surgiu por causa de seu contexto único, sendo uma antiga linha férrea abandonada, onde tanto a vegetação encontrada quanto os próprios artefatos ferroviários inspiraram grande parte de seu vocabulário de design. E a própria experiência no High Line é planejada e inspirada na forma como a estrutura se integra à cidade.
Como outras cidades podem decidir sobre a adoção de projetos similares?
A primeira pergunta a ser feita é: quais são os benefícios de transformar essa infraestrutura em um espaço público?
Em muitos desses espaços, vemos como a infraestrutura separou bairros. Nesses casos, reaproveitar essas peças se torna muito importante, porque conecta comunidades fragmentadas.
A segunda é: qual a despesa de remover essa infraestrutura e reconstruí-la em comparação com reaproveitá-la? Muitos desses projetos se justificam porque – para o High Line em particular – teria sido muito mais caro remover a infraestrutura do que construir sobre ela.
E a terceira é: quais os benefícios se o espaço fosse transformado em um parque? Em São Paulo, há a grande vantagem de isso já ter sido testado. A cidade já utiliza a via nos fins de semana como parque. Isso permite que projetistas e autoridades vejam o que funciona.
Em sua visão, por que o High Line fez tanto sucesso?
Porque criou um tipo de espaço público único e sem precedentes. Quando as pessoas visitam cidades, elas sempre querem ver algo novo, icônico, vivenciar algo diferente, e o High Line ofereceu isso.
Uma das coisas é que você não só vivencia o parque, como experimenta a cidade de Nova York de um ponto de vista diferente, elevado em relação à rua, com momentos em que ele se insinua entre os prédios. Isso cria uma experiência única que você não encontrará em nenhum outro lugar da cidade.
Em 2023, foi aberta uma extensão até o Moynihan Hall. O que ela tem de diferente em relação ao High Line original?
É uma construção totalmente nova, que não está sobre a linha férrea histórica. Isso nos permitiu manter o espírito do High Line, mas projetar sem os desafios de usar uma estrutura já existente.
Construímos um canteiro muito grande. Isso nos permitiu ter muito mais profundidade e volume de solo para coletar toda a água da chuva que cai na ponte e, assim, sustentar uma vegetação muito mais robusta, extensa e variada.
Projetos bem-sucedidos, como o High Line, acabam atraindo muitos turistas e gerando valorização imobiliária, que pode expulsar moradores mais antigos. Como lidar com esses fatores?
É um processo difícil porque muito disso vai além dos designers ou dos políticos que patrocinam esses projetos.
O High Line, por ser um dos primeiros projetos desse tipo, em certo momento impulsionou a gentrificação. O bairro ao redor, que era predominantemente industrial de pequena escala, foi rezoneado e, com isso, houve muito investimento em edifícios de maior valor, o que levou à gentrificação.
Mas, em contraste, trabalhamos arduamente com a organização sem fins lucrativos Friends of the High Line para criar programas voltados aos moradores locais.
Sim, ainda há turistas e gentrificação, mas existem programas que ajudam a combater isso. Um deles é um programa de estágio, em que adolescentes trabalham no High Line por seis meses a um ano.
Eles podem trabalhar em diversas funções, de recepcionar visitantes até cuidar da jardinagem. Dessa forma, eles adquirem experiência que lhes permite decidir qual carreira seguir.
Outro exemplo é o nosso projeto The Underline, em Miami, que estamos construindo atualmente. Nesse caso, fizemos um esforço consciente para trabalhar com o departamento de planejamento local, garantindo que qualquer rezoneamento incluísse uma quantidade significativa de moradias de baixa renda e oportunidades de comércio para pequenos negócios.
Como o conceito de parques inteligentes poderá mudar o futuro das áreas verdes?
Temos trabalhado com parques inteligentes e eu projetei um em Dallas. Podemos pensar em parques inteligentes de muitas maneiras.
Normalmente, “inteligente” é associado à tecnologia. Mas a realidade é que a tecnologia evolui rapidamente e é difícil construir um espaço público voltado para a tecnologia, porque isso precisa durar muito tempo.
“Inteligente” pode significar tecnologia que se torna uma comodidade para as pessoas. Você pode trabalhar ao ar livre e ter tomadas para conectar seu computador.
Mas “inteligente” também pode significar usar tecnologias que ajudem o parque a ser mais sustentável. Trabalhamos com sistemas de irrigação inteligentes que incluem sensores de solo e sensores de chuva.
O sistema se autocalibra, fornecendo água às plantas quando elas precisam, mas não fornece se chover muito. Assim, minimizamos o desperdício de água.
Os sensores podem também medir os impactos dos parques no clima das cidades?
Incorporamos sensores para monitorar a quantidade de calor absorvido e a poluição do ar. À medida que instalamos mais plantas e árvores, usamos esses sensores para entender melhor o impacto ambiental e como essas plantas e árvores podem estar mitigando as mudanças climáticas, reduzindo as temperaturas, a poluição ou o ruído, e, com sorte, usar essas métricas para apoiar investimentos futuros.
Em quais outros projetos você está trabalhando agora?
Em um projeto em Toronto, chamado Bentway. É um parque linear construído sob uma rodovia em funcionamento. Segue a mesma linha de repensar espaços abandonados ou subutilizados próximos ao transporte e criar espaços públicos dentro deles.
Este projeto compartilha semelhanças com o High Line e o Underline, mas é diferente. A rodovia é muito mais larga. Há menos acesso à luz solar. Há uma quantidade significativa de poluição proveniente tanto da água da chuva que a rodovia coleta quanto da poluição dos carros ao redor. Portanto, apresenta desafios muito diferentes sobre como criar um espaço acolhedor para recreação em meio a essas condições ambientais.
Quais projetos chamam a sua atenção no Brasil?
Eu visitei o Brasil bastante durante meus anos de estudo. No início, eu era fascinada por Burle Marx e Niemeyer. Eu venho de Porto Rico, que tem um ambiente muito tropical, e eu amei como os projetos de ambos eram arquitetonicamente muito fortes, mas exploram a relação entre interior, exterior e o clima.
Também foi muito interessante visitar Brasília e entender como uma cidade pode ser planejada do zero, e compreender tanto os aspectos bem-sucedidos quanto os que não foram bem. Mais tarde, passei bastante tempo em São Paulo, estudando a obra de Lina Bo Bardi.
Lina era menos formal e expressiva do que Niemeyer, mas explorava bastante a materialidade e a comunidade. Em especial, um projeto que realmente influenciou meu trabalho foi o Sesc Pompeia. É um projeto tão voltado para a comunidade e, assim que você entra, sente a energia de um projeto bem concebido e bem utilizado.




