O conceito da cidade de 15 minutos é uma das ideias que mais circularam no urbanismo nos últimos anos, e também uma das que conseguiram sair do papel.
Cidades como Paris e Barcelona a colocaram em prática e criaram mais calçadas e ciclovias para favorecer a mobilidade local dos seus bairros.
O urbanista Carlo Ratti – professor do MIT e um dos maiores pesquisadores globais sobre cidades inteligentes – aprova o conceito, mas alerta para seus riscos. Um deles é que esses bairros acabem se isolando, ou sendo isolados, do resto da cidade.

“Focar apenas na caminhabilidade para a classe média alta ignora a questão muito maior, ou seja, a mobilidade para os pobres,” ele disse ao Metro Quadrado.
“Uma verdadeira cidade de 15 minutos não deve ser isolada, mas sim garantir que as pessoas possam atender às suas necessidades básicas localmente, mantendo a liberdade de explorar a cidade como um todo, o oposto da jaula que seus críticos imaginam,” diz.
Ratti dirige o Senseable Lab, do MIT, um espaço de estudo sobre como as novas tecnologias estão mudando as cidades, e será nesta sexta-feira um dos palestrantes do 4º Encontro Cidades Responsivas, que ocorre em Porto Alegre.
Ele foi o curador da Bienal de Arquitetura de 2025, em Veneza, e seu estúdio, o CRA, desenhou a tocha usada nas Olimpíadas de Inverno de Milão Cortina 2026.
Na conversa, o arquiteto também falou dos desafios do planejamento urbano e das novas possibilidades que se abrem para as cidades, inclusive para o mercado imobiliário. “A IA visual poderá facilmente se tornar o corretor de imóveis com mais habilidade,” diz.
Qual será o primeiro grande problema nas cidades que a combinação de sensores, dados e IA será capaz de resolver?
Sensores e IA já conseguem mapear muitas dimensões urbanas. Podemos ver, com detalhes impressionantes, onde uma cidade está falhando com certos moradores: quais quarteirões alagam primeiro, quais bairros têm menos sombra e menos áreas verdes.
O que falta não é a tecnologia, mas a governança para agir sobre ela por meio de novos paradigmas de planejamento, usando esses dados como um bem público. Cedric Price resumiu isso da melhor forma: “A tecnologia é a resposta, mas qual era a pergunta?”.
Como essas novas tecnologias poderão afetar o mercado imobiliário global e o acesso à moradia?
A IA visual aplicada a uma grande quantidade de imagens (como as coletadas pelo Google Street View) pode facilmente se tornar o corretor de imóveis com mais habilidade.
Já demonstramos isso em alguns artigos. Por exemplo, pode detectar bairros em ascensão: aquele carro novo e caro na rua, o restaurante elegante na esquina, a casa recém-pintada e a pessoa elegantemente vestida. Em resumo, consegue captar as “pistas” que todos nós observamos no ambiente urbano visual – mas numa escala e com uma precisão impossíveis para os humanos.
Poderia dar outro exemplo?
Novas tecnologias, como a digitalização 3D, também estão começando a tornar visíveis e tangíveis locais que os mercados imobiliários sempre tiveram dificuldade em enxergar, ou ignoraram, como os assentamentos informais.
No Senseable City Lab do MIT, no Rio de Janeiro, nosso projeto Favelas 4D usa LiDAR [uma tecnologia que mede distâncias com laser] para mapear vielas labirínticas, escadas e habitações densas que os satélites não captam.
Os dados não oferecem uma solução direta, mas podem ajudar a legalizar o urbanismo paralelo e dar aos habitantes de assentamentos informais acesso à moradia.
Isso reformula a informalidade, geralmente definida como uma falha do mercado, como uma forma de inteligência urbana. Uma que poderia fundamentar políticas habitacionais mais inclusivas e resilientes, em vez de deslocar os moradores.
A IA poderá sugerir e tomar decisões sobre mudanças nos espaços urbanos?
A IA generativa é uma máquina de imitação extraordinária – contudo, imitação, por mais poderosa que seja, não é invenção.
Como discuti em um artigo de opinião para o Los Angeles Times com Mario Carpo, o design convive com sistemas generativos há uma década sem entrar em pânico, e essa é uma lição valiosa: a IA pode analisar, sugerir e gerar opções plausíveis para o espaço urbano, mas o salto da imitação para a invenção genuína ainda requer julgamento humano.
Portanto, embora eu veja a IA propondo e simulando mudanças cada vez mais, acredito que as decisões, especialmente as carregadas de valores sobre o futuro de uma cidade, devem permanecer como um diálogo entre cidadãos e planejadores, e não algo totalmente cedido a um algoritmo.
Como vê o uso da IA na arquitetura?
Hoje, todos os escritórios de arquitetura iniciam seus projetos buscando inspiração na IA. Será a “morte do arquiteto?” Talvez para aqueles que apenas replicam modelos existentes. Mas, como mencionei anteriormente, há um domínio que a IA ainda não alcança: inventar o que ainda não foi imaginado.
Como escreveu o crítico Bruno Zevi (tradução minha): “Artistas autênticos, criadores de linguagem, são sempre poucos; ao redor deles, há um grupo de ‘literatos’, profissionais atualizados que constroem corretamente, com um vago toque de inspiração, mas em prosa, não em poesia. Depois vem a onda de plagiadores, entre os quais alguns confundem o grandioso com o grosseiro.”
A IA poderá um dia substituir o segundo e o terceiro grupos descritos por Zevi. Mas, por enquanto, o espaço para a invenção genuína na arquitetura permanece aberto e essencialmente humano.
Como você vê o futuro do modelo da cidade de 15 minutos?
A cidade de 15 minutos, proposta pelo meu amigo Carlos Moreno, não é uma intuição nova. Ela reflete os bairros tradicionais que moldaram as cidades europeias por séculos. É, no geral, uma ideia muito positiva.
No entanto, nossa pesquisa no Senseable City Lab do MIT, com Ed Glaeser, mostra que pode haver riscos.
Usamos dados de telefones celulares de 40 milhões de americanos que mostraram que as pessoas naturalmente organizam suas vidas em torno de viagens curtas quando as comodidades estão próximas, por escolha própria.
Os mesmos dados revelaram um possível perigo: a segregação. Focar apenas na caminhabilidade para a classe média alta ignora a questão muito maior, ou seja, a mobilidade para os pobres.
Portanto, o futuro da cidade de 15 minutos depende da combinação de proximidade com investimento em conectividade entre bairros: investimentos menos glamorosos, mas ainda vitais, como ônibus e metrô, e não apenas ciclovias.
Uma verdadeira cidade de 15 minutos não deve ser isolada, mas sim garantir que as pessoas possam atender às suas necessidades básicas localmente, mantendo a liberdade de explorar a cidade como um todo — o oposto da gaiola que seus críticos imaginam.
Qual é o maior erro que as grandes cidades ainda cometem hoje?
Tentar superar a natureza com engenharia, em vez de projetar em harmonia com ela. Essa mesma rigidez se manifesta na forma como as cidades são construídas para um clima em transformação.
Por exemplo, ainda construímos defesas estáticas baseadas na suposição de que a enchente de amanhã será semelhante à de ontem.
Heráclito observou, há cerca de 25 séculos, que nunca se entra duas vezes no mesmo rio, e as mudanças climáticas estão comprovando sua teoria da maneira mais drástica possível.
Que exemplos de boas medidas contra as mudanças climáticas você tem encontrado?
Cidades tradicionais oferecem lições valiosas. Veneza, onde passei muito tempo nos últimos dois anos, tendo o privilégio de dirigir a Bienal de Arquitetura de 2025, oferece um precedente útil para o projeto voltado à adaptação.
A cidade se adaptou à acqua alta por séculos, e as barreiras móveis do sistema Mose dão continuidade a essa tradição por meios mecânicos.
Hoje, com tecnologias de sensoriamento, desde níveis de água até dados de saturação do solo alimentando comportas automatizadas em tempo real, podemos construir infraestrutura que se comporta de forma mais adaptável. Mais parecido com um sistema nervoso do que com uma parede.
Você trabalhou em projetos relacionados à Amazônia, Belém e Rio. Que lições e exemplos levou do Brasil?
O Brasil há muito tempo é um laboratório de inovação urbana, combinando criatividade extraordinária com as realidades da desigualdade e da informalidade – gerando soluções de baixo para cima, em vez de um planejamento centralizado.
Além disso, o Brasil se destaca em pequenas intervenções que podem catalisar mudanças. Jaime Lerner chamou esse fenômeno de “acupuntura urbana”, e o Brasil o pratica há décadas.
A AquaPraça em Belém – um projeto que desenvolvemos para a COP30 no ano passado em conjunto com a Howeler Yoon – é outro exemplo: uma pequena intervenção estratégica que usa o espaço público para reconectar as pessoas com a água e o ambiente natural da cidade.
O debate global sobre cidades inteligentes tem muito a aprender com este país e sua tradição: a inteligência urbana começa com as pessoas, muito antes da instalação de qualquer sensor.
Que ideia ou projeto mais chamou a sua atenção recentemente?
Estou fascinado como a intimidade e a vida doméstica estão passando por revoluções: o trabalho migrou para o lar, os relacionamentos são mediados por telas, os lares são mais fluidos, menos previsíveis, muitas vezes menores ou mais temporários do que no passado. Comecei a chamar isso de ideia de “lar poliamoroso”.
Se pudesse escolher uma única transformação que todas as grandes cidades deveriam implementar para combater as mudanças climáticas, qual seria?
Plantar mais árvores.




