Hélio Olga, o rei da madeira ‘engenheirada’

Hélio Olga, o rei da madeira ‘engenheirada’
Vanessa D'Amaro |

Basta falar de estruturas de madeira na construção civil que o nome do engenheiro Hélio Olga aparece em conversas com o mercado.

Como ele mesmo diz, a madeira é “coisa de família”: seu avô era carpinteiro, e seu pai e seu tio também trabalhavam com o material, ainda que de maneira amadora.

Hélio fundou a ITA Engenharia em Madeira com o pai nos anos 1980 e cresceu trabalhando principalmente com casas de praia e de campo – mas nos últimos anos tem sido mais procurado por arquitetos para projetos de grande porte, como edifícios comerciais, centros culturais, museus e indústrias, num esforço dos contratantes para industrializar a construção em um cenário de escassez de mão de obra.

A madeira engenheirada (ou madeira laminada colada, MLC) é uma técnica construtiva já consolidada no exterior e que tem crescido no Brasil graças ao uso de maquinário de ponta, ampliando as possibilidades de aplicação.

“A vantagem da madeira laminada colada em relação à construção tradicional é que o processo é muito mais rápido. Já em relação ao aço, ela é um material mais leve e mais fácil de trabalhar,” Hélio disse ao Metro Quadrado.

O seu portfólio agora conta com edifícios residenciais, como o Ibá, projetado pelo Estúdio Bg em São Paulo, e o prédio Moradas Infantis da Escola Fazenda de Canuanã, em Tocantins, assinado por Marcelo Rosenbaum e Aleph Zero, vencedor do Prêmio Internacional RIBA 2018.

Recentemente, a empresa começou a trabalhar em dois projetos com características até então inéditas em seu repertório. O primeiro é a fábrica da Tania Bulhões, cuja estrutura é toda em madeira e foi desenvolvida pelo escritório Saboia + Ruiz Arquitetos, em Uberaba.

O segundo é o projeto de restauro da Cidade da Música da Bahia. Liderado pelo arquiteto Adriano Mascarenhas, do escritório Sotero Arquitetos, o trabalho incorpora a madeira laminada colada à recuperação do antigo edifício histórico no centro de Salvador.

“O nosso projeto traz a MLC de forma inédita como protagonista numa intervenção de grande porte no patrimônio histórico,” disse Mascarenhas ao Metro Quadrado.

O material foi usado no edifício histórico que sediará a Casa de Espetáculos e no edifício novo da Escola. “Foi um acerto da nossa escolha tanto pela precisão técnica e pela pertinência estética quanto pela eficiência ambiental, a rapidez de execução e adequação ao orçamento.”

Mas, para chegar a esse nível de aperfeiçoamento, foi necessário um grande desenvolvimento tecnológico, que Hélio acompanhou de perto.

Na década de 1970, ele estudou engenharia na Poli-USP e, em 1978, quando se formou, foi ajudar um amigo da família a construir casas “pré-elaboradas”, como eram chamadas na época, no sul da Bahia.

O amigo era José Zanine Caldas, que hoje é celebrado por seu trabalho com a madeira, tanto como designer de mobiliário quanto como arquiteto. Suas obras já tinham um aspecto de vanguarda porque defendiam princípios sustentáveis. Zanine pregava, por exemplo, o reúso de materiais de demolição e uma relação mais respeitosa com a natureza e o entorno.

Para Hélio, essa experiência definiu seu rumo profissional. “Quando eu cheguei na obra pela primeira vez e tirei a lona de cima do material e estava tudo pré-cortado, numerado, bonitinho, eu tive uma intuição. Falei: quero trabalhar com isso,” lembra.

Na década de 1980, quando ele e o pai fundaram a ITA, desenvolveu projetos em madeira para arquitetos como Roberto Aflalo Filho e João Marques da Costa Neto.

“Chegou um momento em que decidimos nos especializar numa coisa só. Em 1985, paramos de fazer construção em geral e começamos a trabalhar só com madeira,” disse Hélio.

Nesse primeiro período, ele construiu principalmente com madeira nativa e certificada, vinda do norte do País, ao lado de arquitetos como Marcos Acayaba e Mauro Munhoz. Em 2008, começou estudos sobre a viabilidade da madeira laminada colada.

“A maioria das construções sempre foi no Sudeste. Então, do ponto de vista ambiental, mesmo que seja uma madeira vinda de um manejo certificado, quando você traz essa madeira do Acre até aqui você já causa um impacto por conta do trajeto,” ele disse. “Se temos florestas de eucalipto próximas de São Paulo, poderíamos trabalhar com esse eucalipto.”

A técnica não era nova: já era muito usada na Europa desde o começo do século 20 e, desde a década de 1950, já havia empresas que trabalhavam com MLC no Brasil, como as pioneiras Esmara Estruturas de Madeira, que ainda existe no Rio Grande do Sul, e a Laminarco.

Ainda não havia, porém, o refinamento técnico e tecnológico que ele propôs na ITA. De 2010 em diante, Hélio adquiriu máquinas de alta complexidade para trabalhar principalmente com o eucalipto.

“O eucalipto é um material muito eficiente mecanicamente,” disse.

Hoje, a ITA Engenharia opera com robôs de alta velocidade e tecnologia de ponta, o que inclui duas máquinas alemãs Hundegger K2i, consideradas as CNCs mais rápidas do mercado para o processamento de madeira estrutural.

Além da agilidade, há também um aspecto sustentável. A construção em madeira é bem menos poluente do que a de concreto. Estima-se que a construção civil seja responsável por 38% das emissões de dióxido de carbono na atmosfera, enquanto a produção de cimento, sozinha, responde por 8% das emissões globais de CO₂, de acordo com a Global Cement and Concrete Association (GCCA).

Com esse maquinário, é possível criar estruturas de tamanhos diversos que dispensam o concreto ou o aço. 

“Quando a gente consegue fazer uma peça, por exemplo, com 24 metros de comprimento, 180 milímetros de largura e um metro de altura, começa a ter na madeira uma liberdade formal que só existia no aço e no concreto,” disse.

Para o processo funcionar, no entanto, era necessário entender também a colagem dessas peças encaixadas, o que Hélio aprimorou ao lado de pesquisadores da USP de São Carlos.

Ele diz que o trabalho se equipara ao que é feito no exterior. “Usamos os mesmos parafusos, os mesmos programas de cálculo, as mesmas CNCs, as mesmas colas. Em tecnologia, nós estamos no mesmo patamar.”

Apesar do sucesso dessas experiências recentes, Hélio avalia que ainda há muito espaço para crescer.

Existe uma resistência de arquitetos e engenheiros ao uso da madeira, uma vez que os cursos universitários não costumam ter disciplinas voltadas a esse tipo de construção. Consequentemente, os profissionais recém-formados saem mais familiarizados com estruturas de concreto e aço, que acabam reproduzindo com mais frequência.

Embora exista um entusiasmo recente no mercado, para ele é necessário ampliar o estudo do material. Ele mesmo costuma ministrar aulas e disciplinas para introduzir jovens profissionais no universo da madeira laminada colada.

Mas Hélio alerta que há alguns pontos de atenção neste tipo de construção: a madeira precisa passar pela carbonização para oferecer baixo risco em incêndios – algo que ele diz nunca ter acontecido com ele – e ela também pode ser atacada por insetos.

“Eu adoro a madeira, só sei fazer isso da vida, mas ela não é solução para todos os problemas. Ela precisa ser usada de forma adequada. Nós sempre orientamos aos arquitetos: é a qualidade do projeto que garante a durabilidade, não só o material,” afirma.

A imagem no topo é do projeto da Cidade da Música na Bahia. O crédito é da Sotero Arquitetos.

Siga o Metro Quadrado no Instagram

Seguir