Na Zona Leste de São Paulo, dois terrenos foram comprados por uma entidade para receber um experimento: fazer locação social sem apoio do governo.
A expectativa é que o modelo ajude a segurar a alta dos aluguéis na região e possa servir de exemplo a outras comunidades.
Os terrenos ficam próximos, separados pela linha do trem, nos bairros Jardim Lapena e São Miguel Paulista. Nas duas áreas, que somam 2.900 m², serão construídos dois prédios, com 60 apartamentos ao todo.
A compra dos terrenos e a construção dos prédios são capitaneadas pela Fundação Tide Setúbal, em parceria com outros players, como Blendlab e Reurba, que buscam ampliar o acesso à moradia.
No modelo de locação social, as famílias de baixa renda podem morar nos apartamentos por tempo indeterminado, pagando mensalidades baixas.
Caso elas melhorem de situação e queiram se mudar, abrem espaço para que outra família seja atendida, o que permite beneficiar mais pessoas ao longo do tempo.
O modelo ainda é pouco usado no Brasil, mas registra avanços. Nos últimos meses, cidades como Recife e Campo Grande anunciaram iniciativas nessa área.
No projeto da Tide Setúbal, o alvará para a construção do primeiro prédio foi obtido na semana passada e as obras devem durar entre 18 e 25 meses.
A fundação planeja construir apartamentos com tamanho entre 26 e 60 m². Para a entidade, uma das principais vantagens da locação social é permitir realocar, no mesmo projeto, os moradores conforme as necessidades mudam ao longo dos anos.
“As famílias costumam aumentar e diminuir. Tem filho que vai embora, depois retorna. É preciso considerar essas transições,” Fabiana Tock, a coordenadora de Cidades e Desenvolvimento Urbano da Tide Setúbal, disse ao Metro Quadrado.
Fabiana espera que a iniciativa ajude a regular o mercado de aluguéis no bairro, ao oferecer opções mais baratas. Os pagamentos não devem superar 30% da renda domiciliar, com valores abaixo dos que são cobrados na região.
A decisão sobre quem vai morar nos prédios novos será tomada pelas organizações locais. “O único critério predefinido é que as vagas serão ofertadas para moradores do Jardim Lapena,” ela disse.
A iniciativa prevê ainda que os apartamentos possam ser usados para gerar renda, como preparar alimentos para vender, e que haja lojas no térreo, de modo que a renda dos aluguéis comerciais ajude a fechar as contas dos condomínios.
O modelo para custear a construção ainda está sendo fechado, e se baseará no formato blended finance, para combinar recursos de caráter social, como os de filantropia e de bancos de desenvolvimento, com captação no mercado.
A fundação avalia estruturar um CRI, com cotas de riscos distintos. O total a ser investido não foi revelado.
Depois que tudo estiver pronto, a entidade pretende sair aos poucos do negócio e repassar a administração dos prédios para uma associação, formada pelos moradores. Se a ideia der certo, poderá ser replicada em outras partes do País.




