Fortaleza procura projeto para seu antigo ‘Copacabana Palace’

Fortaleza procura projeto para seu antigo ‘Copacabana Palace’
Vanessa D'Amaro |

Depois de anos de abandono e de uma demolição polêmica em 2024, o terreno onde ficava o Edifício São Pedro, um dos prédios mais famosos da Praia de Iracema, em Fortaleza, está prestes a ganhar um novo capítulo.

A Universidade Federal do Ceará (UFC) e o Instituto dos Arquitetos do Brasil – Departamento Ceará (IAB-CE) organizam um concurso para escolher o projeto arquitetônico de um centro cultural a ser erguido no local.

Construído em 1951 por iniciativa do empresário Pedro Philomeno Gomes, o São Pedro faz parte da história da capital cearense. Ele se tornou um marco na paisagem da Praia de Iracema em uma época em que não havia prédios na região. 

Inicialmente conhecido como Iracema Plaza Hotel, o local inaugurou a rede hoteleira na orla da cidade — até então concentrada no Centro. A presença do São Pedro também impulsionou a verticalização e o adensamento do bairro.

“Na época, a Praia de Iracema era uma área com casas de veraneio ou segunda residência. O hotel foi muito importante para a paisagem daquele lugar,” afirma Jefferson John Lima da Silva, ex-presidente do IAB-CE e um dos coordenadores do concurso, ao Metro Quadrado.

Embora a autoria do edifício não seja consenso, ela costuma ser atribuída ao engenheiro Orlando Ariosto Luna Freire, responsável pela obra. 

Erguido em concreto armado e com oito pavimentos, o desenho do edifício misturava uma série de influências, como art déco e protomodernismo. 

O formato, por sua vez, remetia a um navio. Existe, inclusive, uma lenda de que o último andar nunca foi concluído porque o proprietário teria sonhado que morreria assim que a obra terminasse. 

Associado a uma época de glamour, o endereço foi considerado o “Copacabana Palace de Fortaleza” e costumava ser palco de festas e encontros da elite da região. Chegou a hospedar celebridades nos anos 1960, como as cantoras Wanderléa e Vanusa, ícones da Jovem Guarda. 

O empreendimento reunia mais de 100 suítes, restaurante, salões de convenções, café e barbearia, além de uma ala residencial com apartamentos de 200 m².

Ao longo dos anos, no entanto, o local entrou em decadência. Na década de 1970, o hotel fechou as portas e as suítes foram convertidas em apartamentos residenciais. A falta de manutenção acabou deixando o prédio em ruínas, ainda que muitas pessoas continuassem a morar ali.

No início dos anos 2000, o São Pedro foi tombado provisoriamente, mas seguiu se deteriorando. Em 2014, a Defesa Civil de Fortaleza constatou risco de colapso devido ao comprometimento estrutural, agravado pela ausência de restauro. 

Em 2015, uma proposta de reforma previa erguer uma torre no centro do terreno, mantendo parte da construção original, mas o plano não saiu do papel. Seis anos depois, em 2021, a situação era tão crítica que uma jovem morreu ao cair do terceiro andar.

Diante do cenário, o tombamento definitivo foi indeferido e, em 2022, o imóvel foi desapropriado. Dois anos depois, o prédio foi demolido — provocando comoção na cidade, que ainda esperava a restauração do espaço para uso público. Na ocasião, o IAB-CE publicou uma nota questionando a decisão da prefeitura.

Após a demolição, a UFC obteve a cessão de guarda provisória do terreno e instalou uma praça. Agora, o objetivo é erguer o equipamento cultural, vinculado à universidade, a partir das propostas apresentadas no concurso.

“Este projeto não diz respeito apenas a um edifício, mas também a toda a relação da construção com a cidade e com a paisagem,” o professor Newton Becker, do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC e um dos coordenadores do concurso, disse ao Metro Quadrado.

O edital pede que os arquitetos desenvolvam um centro cultural com praça pública, foyer e um cineteatro com aproximadamente 900 lugares e estrutura para diferentes tipos de apresentações. O local deverá ter também salas de exposição, teatro, sala de ensaios e biblioteca. 

“O principal desafio é trabalhar com um programa muito complexo e extenso em um terreno pequeno, de cerca de 2.250 m². Os projetos de arquitetura devem pensar em boas soluções,” afirma Jefferson.

Segundo o arquiteto, a localização impõe desafios, como as condições climáticas de Fortaleza: incidência solar, ventilação, sombreamento, umidade, maresia e a consequente necessidade de durabilidade dos materiais. 

Por isso, o júri selecionado pela organização — composto por profissionais de diferentes regiões do Brasil — também avaliará soluções de eficiência energética, conforto ambiental, permeabilidade do solo e drenagem.

Tanto Newton quanto Jefferson garantem que, embora o edital peça reverência à memória do Edifício São Pedro, a ideia não é reproduzir as características da construção original, mas resgatar essa relevância histórica de forma conceitual nas propostas. 

“Para os arquitetos, o primeiro passo é se assenhorear do terreno. Assenhorear é uma palavra antiga, mas ideal. Os profissionais precisam tomar propriedade deste lugar,” afirma Jefferson.

Além de premiações em dinheiro para os três primeiros colocados, o contrato com o escritório vencedor está estimado em R$ 7,2 milhões. As inscrições vão até 6 de outubro, e o resultado deve sair no dia 21 de novembro.

A imagem do topo mostra o Edifício São Pedro nos anos 1950 e pertence ao Acervo do IBGE. 

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