NOVA LIMA – O arquiteto Gustavo Penna nunca tinha desenhado uma paróquia. No máximo, havia criado uma capela aqui e ali, como parte de projetos maiores.
Foi então que o padre Alexandre Fernandes o procurou.
O sacerdote havia passado 20 anos à frente da paróquia do Belvedere – um dos bairros de elite de Belo Horizonte – e queria que Gustavo projetasse a nova paróquia que iria liderar em Nova Lima, a cidade vizinha que há décadas tem atraído famílias de BH para seus condomínios de alto padrão.

Boa parte das famílias do Belvedere tem migrado para o Vale do Sereno, um dos bairros de Nova Lima, e foi ali que o padre recebeu de um grupo de investidores a doação de um terreno de 5 mil metros quadrados para construir o novo templo.
Gustavo – um dos arquitetos mais renomados do País – topou o trabalho por considerar que as igrejas representam “a excelência da arte” na história da arquitetura, com desafios estéticos, de engenharia, de proporções e de luminosidade.
“Se você analisar as igrejas barrocas, verá como a luz e o sentido de elevação foram estudados,” ele disse ao Metro Quadrado.
“Mas, no Brasil, as igrejas foram virando galpões, sem sentido estético nenhum, como se a religião tivesse abandonado a sua quintessência, que é a criatividade, a visão artística.”
Gustavo se considera um “clínico-geral” da arquitetura e também viu na paróquia a oportunidade de sair um pouco do dia a dia dos projetos de prédios residenciais e corporativos.
“Eu detesto a rotina. Imagina todo dia você só pensar em fazer quarto e sala,” ele disse.
“Eu trabalho para o mercado por uma questão de keep moving do escritório, e também para não deixar que o mercado seja ocupado apenas por quem não acredita na criação – mas o meu negócio é a arte.”
Ele começou a trabalhar na paróquia Bom Jesus do Vale em 2014, e só agora as obras (custeadas pela comunidade) estão perto de serem concluídas, com a entrega prevista para o fim do ano.
Um dos diferenciais do projeto do arquiteto é a cruz vazada que se impõe na parte frontal do templo, do teto ao piso, e de uma ponta à outra, e que faz a função de porta da igreja – dando sentido ao conceito que Gustavo foi buscar na história da religião cristã.
“A cruz é o fim de Cristo, mas o início do cristianismo, então a fizemos vazada na frente para ser fim e porta ao mesmo tempo, em vez de estar na torre do sino ou apenas dentro, no altar,” ele disse. “Assim, o dentro e o fora são menos importantes que o através.”
A igreja tem espaço para abrigar 1 mil fiéis, além de um auditório, salas de aula e uma estação de TV – que somam cerca de 4 mil m² de área construída.
Atrás do altar, a parede será de vidro para manter a vista livre para a mata ao fundo, e também deixar a iluminação natural entrar nas missas pela manhã.

Já o teto terá uma curvatura pensada para favorecer a acústica.
“Se a superfície é plana, isso fecha o circuito de reverberação, criando problemas de compreensão da sonoridade. E toda igreja normalmente é reverberante.”

O projeto também inclui uma praça com um espelho d’água que vai ocupar parte da avenida à frente, e que terá ainda um pequeno púlpito para o padre fazer missas campais.
“O espaço externo é tão arquitetura quanto o espaço interno,” ele disse.
Nascido em BH em 1950, Gustavo é neto de um carioca que se casou com uma mineira da cidade de Oliveira, e os dois se mudaram para a capital de Minas quando a cidade tinha só seis anos de fundação, no início do século 20.
O avô era juiz de direito e comprou um casarão no bairro de Lourdes, e é lá onde o arquiteto mantém o seu escritório há cerca de 50 anos.
Entre seus projetos mais conhecidos estão o edifício Santiago de Compostela, um ícone de BH construído nos anos 1990, e o Memorial de Brumadinho, que venceu o prêmio APCA na categoria de arquitetura.
Antes de começar o trabalho com a paróquia, ele também projetou vários dos residenciais já construídos no entorno – todos pensados para conversar com a topografia acidentada da região.
A igreja, quando surgiu, foi desenvolvida para ser uma das âncoras do Vale do Sereno, ajudando a dar centralidade a um bairro nascido como loteamento no lugar de uma antiga fazenda e que ainda está em desenvolvimento.
E o fato de a igreja ser construída num vale também se contrapõe ao que normalmente é feito com os templos.
“As igrejas costumam estar no topo de um morro, uma vendo a outra e produzindo um coral divino. Já no vale, todos os interesses correm para ela, como as águas dos rios chegam ao mar.”
O Vaticano não interfere em projetos desse tipo, mas Gustavo disse que o seu trabalho precisa respeitar a liturgia e o valor simbólico de cada um dos elementos do templo, como o ambão, a cátedra, os espaços da paixão e as cruzes dos apóstolos.
“A liberdade para criar existe desde que esses valores sejam compreendidos.”
O padre, aliás, tem o plano de levar o projeto a Roma para que o Vaticano possa usá-lo como referência para outras obras.
Nada mal para um arquiteto que se diz católico pero no mucho.




