O empresário que comprou sem saber um Ramos de Azevedo no Centro de SP

Allan Ruiz achou que tinha apenas comprado mais um prédio antigo no Centro de São Paulo.
Mas o empresário arrematou sem saber um edifício de 1919 projetado por Ramos de Azevedo, o arquiteto responsável pelo Theatro Municipal de São Paulo e pela Pinacoteca de São Paulo.
Atuando no mercado imobiliário desde 2009, Allan passou os últimos sete anos mapeando edifícios para investidores interessados em projetos de retrofit (que chegaram a mais de 350), mas ainda não havia tocado um empreendimento sozinho.
“Eu estava de olho em alguns imóveis e abriu uma janela de oportunidade de comprar esse em específico,” ele disse ao Metro Quadrado.
Próximo ao Pateo do Collegio, na rua Roberto Simonsen — uma das mais antigas de São Paulo —, ele encontrou um prédio abandonado que havia sido adquirido por um empresário em 2020 e mantido fechado.

Na época, contava com pouquíssimas informações sobre a construção. O proprietário não tinha a documentação completa, as plantas ou sequer a confirmação de que o imóvel possuía Habite-se. Também não havia infraestrutura elétrica ou hidráulica.
As poucas informações que Allan tinha eram suficientes para o negócio que pretendia fazer: a requalificação do edifício para transformá-lo em um residencial.
Quando a compra se concretizou, regularizar o imóvel era a prioridade. Allan pediu o desarquivamento de documentos na Prefeitura e recebeu apenas um Habite-se de 1961, referente a uma reforma que desconfigurou o pavimento térreo para a abertura de uma loja comercial, plano posteriormente descartado.
Mesmo sem conhecer a origem do projeto, alguns elementos arquitetônicos já chamavam sua atenção. Apesar de algumas tentativas de reforma, a construção preserva a beleza do desenho arquitetônico pré-modernista.
De fora, o prédio se destaca pela fachada em estilo eclético. Nos interiores, um salão com pé-direito duplo e janelas amplas é inundado pela luz natural. Há ainda vitrais coloridos que reforçam o jogo de luz e sombra dentro do edifício.
Outra característica marcante são os tijolos aparentes, que lembram o estilo da Pinacoteca.
Esses tijolos acabaram sendo decisivos na busca de Allan pela história do imóvel. Eles continham a marca de uma olaria e, em uma pesquisa na internet, Allan descobriu a Tijoloteca, iniciativa do Centro de Arqueologia de São Paulo.
Ao falar com a historiadora e arqueóloga Angélica Moreira da Silva, responsável pela Tijoloteca, ele descobriu não apenas a origem dos tijolos, mas também a autoria do edifício: aquele imóvel era a antiga Policlínica e sede da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, um projeto original de Ramos de Azevedo.
“Eu fiquei chocado. Ela me mandou um trecho de um livro que ela tinha com as atas da Policlínica de 1895 a 1941. Em um dos capítulos dizia que, em 1916, eles tinham contratado o escritório do Ramos de Azevedo para fazer o projeto deste edifício,” disse.
A Policlínica funcionou ali de 1919 a 1939. Depois disso, por conta de dívidas, o imóvel passou a pertencer à Caixa Econômica Federal. O prédio ficou praticamente vazio nos 85 anos seguintes, com raras ocupações da Caixa Cultural ao longo do período.
“É triste pensar que ele ficou todo esse tempo abandonado, mas, por outro lado, não sofreu o estresse de uso. Então, acabou conservado,” disse.
Para ter certeza absoluta, Allan recorreu ao Arquivo Histórico Municipal. Lá, encontrou as plantas originais, o memorial descritivo e a assinatura do arquiteto.
“Eu fiquei fascinado com aquela planta, estava em perfeito estado. A confirmação veio quando eu vi o documento de fato assinado por Ramos de Azevedo, tudo certinho.”
Diante da descoberta, os planos mudaram. Allan planeja criar um equipamento cultural privado ali. O edifício fica a poucos metros de importantes locais históricos da cidade, como o Solar da Marquesa de Santos, a Casa Número Um, o Pateo do Collegio, o Museu das Favelas, a Caixa Cultural São Paulo e o Edifício Rolim.
“A região é um polo cultural e turístico. Então, o prédio tem essa vocação. Depois que eu descobri que esse projeto era do Ramos de Azevedo, minha responsabilidade aumentou e senti que a população deveria ter acesso a esse lugar.”
Como o imóvel é tombado desde 2015, o restauro precisa preservar a fachada e a volumetria. Agora, Allan estuda maneiras de viabilizar financeiramente a reforma. Ele já busca profissionais de arquitetura para conduzir o projeto e restaurar os murais, a fachada, os pisos e os caixilhos.
“Sendo bem sincero, eu não pretendo alterar muito. Algumas coisas talvez eu tenha que adaptar para acessibilidade, incluindo o elevador antigo. Mas tudo o que eu quero é manter o máximo possível do original, inclusive a estética de ruínas que ele tem hoje,” disse.
Uma de suas iniciativas para atrair investidores para a reforma é divulgar a história nas redes sociais. Em fevereiro, ele abriu o perfil @recicloimoveis no Instagram e vem, aos poucos, revelando os bastidores das suas descobertas.
“A segunda postagem que eu fiz viralizou. Deu meio milhão de views. E acabou dando uma repercussão que eu nunca esperava. As pessoas se mostraram muito interessadas nessa história.”
A popularidade fez Allan organizar visitas guiadas com grandes grupos de estudantes e interessados em arquitetura. Ainda que a reforma não tenha começado, ele pretende sediar eventos de arte no local — recentemente, recebeu artistas e curadores que se impressionaram com o imóvel.
“Ver a reação dessas pessoas que dedicam a vida à arte me deixa nas nuvens,” diz.







