São Paulo vai ganhar um novo parque – que terá um rio ‘ressuscitado’

São Paulo vai ganhar um novo parque – que terá um rio ‘ressuscitado’
Rafael Balago |

Um rio escondido há quase 100 anos vai voltar à superfície de São Paulo.

O Rio Bixiga – que deu nome ao histórico bairro da cidade – será desenterrado para ser o eixo central de um parque que vai começar a ser construído após uma disputa que durou mais de 40 anos.

O terreno do parque – que fica entre as ruas Jaceguai e Abolição – pertenceu por décadas a Silvio Santos, que queria construir no lugar a sede do seu grupo, mas o empresário enfrentou a resistência de um vizinho icônico, o Teatro Oficina, do diretor Zé Celso, que temia que o seu espaço cultural fosse expulso dali.

O embate foi encerrado após a Prefeitura comprar a área e decidir construir o Parque Rio Bixiga, criado oficialmente por um decreto municipal na semana passada – e projetado por um coletivo de jovens arquitetos que venceu um concurso público, o Democratic Architects.

Um dos pedidos da Prefeitura era que o rio fosse integrado ao parque como eixo central do projeto – na primeira vez em décadas em que a cidade se propõe a desenterrar um curso d’água, que corre a dois metros de profundidade e agora poderá se expandir.

Além do rio, o parque possui bolsões de alagamento, áreas que poderão receber o excesso de água em épocas de chuva. Estruturas ocultas, chamadas de soleiras hidráulicas, também ajudam a controlar o fluxo.

“A cada vez que você passar lá, o rio vai ter uma cara, pois haverá um nível de água ligeiramente diferente,” Andre Zanolla, o diretor do escritório, disse ao Metro Quadrado.

O arquiteto espera que este projeto ajude as cidades a repensar seus córregos aterrados.

“Em São Paulo, os rios foram vistos como infraestrutura sanitarista, algo de que você queria ficar o mais distante possível. Era talvez uma postura equivocada. Queremos fazer as pazes com o rio e inspirar outros projetos,” disse Zanolla.

O novo parque vai deixar mais verde um dos cenários mais cinzentos da metrópole, já que o espaço fica bem perto da ligação Leste-Oeste, onde passam milhares de carros por hora, e ajudar a valorizar os imóveis da região, que também deve ganhar estações de metrô.

A parte interna do parque, com 11 mil metros quadrados de área, será dividida em dois setores.

Embaixo haverá um bosque urbano, em meio ao rio e aos jardins alagáveis, com passarelas e decks de madeira, contornando o espaço. A parte superior terá áreas para atividades, como quadras esportivas e pátios para apresentações culturais. 

Do lado de fora, haverá minipraças, fora das grades, abertas ao público dia e noite, com a proposta de “trazer o parque para fora do parque” e criar espaços de convivência para os moradores do bairro. 

A prefeitura ainda não tem uma data para a entrega do parque. O contrato com o Democratic Architects prevê que o projeto executivo seja concluído até maio de 2027. Em seguida, será feita a licitação para a obra. 

“Tem licitação que dura dois, três meses, e tem licitação que dura 10 meses. Depende dos recursos das empresas, e pode atrasar,” Isabella Armentano, a diretora de implantação, projetos e obras da Secretaria do Verde e Meio Ambiente de São Paulo, disse ao Metro Quadrado.

Isabella trabalha há 14 anos na SVMA, e esta é a primeira vez que vê um parque paulistano ter seu projeto escolhido por meio de um concurso de arquitetura. 

“Geralmente a gente discute a obra e a implantação. E agora a gente também discutiu o projeto na mídia. Houve um grande processo participativo para elaborar o edital do concurso,” ela disse.

A diretora ressalta que o parque não estava previsto no Plano Diretor, mas acabou sendo incorporado após uma intensa campanha da comunidade do Bixiga, e como um esforço para dar fim à batalha entre Sílvio Santos e Zé Celso.

Sílvio comprou o terreno nos anos 1980 e pretendia que a sede do seu grupo ali fosse um prédio com mais de 100 andares, ao lado do Teatro Oficina, instalado no Bixiga desde 1958 e conhecido por ter um “formato sanduíche”, em que o palco é um corredor no centro, entre duas plateias estreitas e compridas. 

Com receio de que o seu teatro fosse afetado pelo prédio de Silvio, Zé Celso conseguiu o tombamento do espaço pelo Condephaat na mesma década. O órgão destacou, na época, a importância histórica do local para as pesquisas de novas linguagens teatrais.

Em seguida, o teatro passou por uma reforma, com um projeto assinado por Edison Elito e Lina Bo Bardi. 

Reaberto por completo em 1994, o Oficina ganhou amplas janelas, que permitem aos espectadores ver a cidade enquanto assistem às apresentações.

Mesmo com o tombamento, Silvio não desistiu do terreno. Ao longo dos anos 1990 e 2000, o apresentador propôs outros projetos, com a construção de torres comerciais e residenciais e de um shopping, também barrados. Houve também conversas diretas entre Sílvio e Zé Celso em várias ocasiões, mas nada de acordo.

A solução veio apenas em maio de 2024, dez meses após a morte de Zé Celso. O Grupo Silvio Santos aceitou vender o terreno para a Prefeitura por R$ 64,3 milhões, para que um parque fosse construído no local. 

Sílvio morreu três meses depois.

Siga o Metro Quadrado no Instagram

Seguir