O bairro que quer atrair quem está fugindo dos arranha-céus de Balneário

O bairro que quer atrair quem está fugindo dos arranha-céus de Balneário
André Ítalo Rocha |

CAMBORIÚ – Os maiores prédios de Balneário Camboriú têm 300 metros de altura, mas a apenas sete minutos de carro já é possível não vê-los mais.

No município vizinho de Camboriú (do qual Balneário se emancipou em 1964), há um vale cercado de colinas que dominam a visão, formando um paredão verde que tapa a vista de edifícios – e assim, o que se ouve no entorno não é o agito de uma cidade verticalizada e com praia, mas o canto dos pássaros do interior.

É ali – em um terreno de 900 mil metros quadrados (dos quais 400 mil de mata atlântica preservada) – que a família Silvestre está desenvolvendo um bairro planejado que pretende atrair quem trabalha em BC mas não quer (ou não pode) pagar por um imóvel de luxo em dos arranha-céus da orla.

Eles identificaram que há um público de médio e alto padrão disposto a morar em uma casa grande e cercada de verde na cidade vizinha, em vez de pagar alguns milhões a mais por um apartamento do mesmo tamanho em BC – e mesmo assim seguir perto do trabalho.

Este será o primeiro bairro planejado da região de Camboriú e Balneário Camboriú e terá R$ 10 bilhões de VGV. Perto dali, há apenas o Vivapark, em Porto Belo.

A área foi comprada há mais de 50 anos pelo paranaense Aujor Fernandes Silvestre, um economista de formação que prosperou comprando e vendendo terras no Sul e no Centro-Oeste, boa parte para o agro.

Já no início ele vislumbrou que aquele terreno em Camboriú seria urbanizado, e chegou a instalar uma placa que dizia que ali um dia viraria uma cidade.

Mas durante anos o espaço foi um autódromo, e só agora está tomando forma como um lugar de desenvolvimento imobiliário, pelas mãos dos seus dois filhos: Luian e Aujor Filho.

A família dividiu o terreno em 796 lotes de 300 m² cada: uma parte está sendo vendida para a construção de casas, e uma outra parte para a incorporação de prédios residenciais e comerciais, que só poderão ter no máximo 16 andares.

Os primeiros lotes foram vendidos por R$ 328 mil em 2019. Desde então, já valorizaram cerca de 400%.

Uma das apostas da família para atrair as incorporadoras é a disponibilidade de áreas, um luxo que BC já não tem mais.

“Se uma incorporadora quiser comprar 6 mil metros quadrados, ela encontra aqui,” Luian disse ao Metro Quadrado. “Já em Balneário isso é impossível. O que eles conseguem é comprar casas para demolir e chegar a no máximo 1 mil m².”

Nutricionista de formação, Luian cresceu no Paraná e se mudou para BC há 11 anos para fazer uma transição de carreira para o mercado imobiliário e tocar o projeto do terreno junto com o irmão.

No início, o plano era fazer um loteamento simples, mas o boom que a região de BC tem vivido nos últimos anos abriu a cabeça da família para pensar um bairro planejado, que recebeu o nome de Colinas Camboriú.

Camboriú é há anos uma cidade-dormitório para quem trabalha em BC, mas o centro da cidade não conta uma oferta relevante de projetos novos para abrigar o público de médio e alto padrão – um vazio que o Colinas quer ocupar.

Desde que conseguiu as aprovações da Prefeitura, a família Silvestre já fechou com a rede de escolas COC, a operadora de senior living São Pietro e as incorporadoras FHaus e Alfa.

E para que o bairro seja de fato planejado, eles têm escolhido a dedo cada projeto que se instala no terreno, buscando uma complementaridade entre os empreendimentos, e também para que não haja um excesso de oferta que derrube os preços.

O projeto da Alfa, por exemplo, será de lofts, enquanto o da FHaus terá apartamentos entre 54 m² e 108 m².

“Estamos direcionando para que cada empreendimento tenha uma tipologia diferente da que a está sendo lançada anteriormente, e assim não haver canibalismo no bairro,” ela disse.

Thomas Fischer, um dos sócios da FHaus, é nascido e criado em BC, mas passou 13 anos morando nos Estados Unidos, onde passava os fins de semana nos parques.

“Quando voltei para Balneário, percebi que a cidade era muito árida, e que era até menos arborizada do que São Paulo,” ele disse ao Metro Quadrado. “Quando conheci o Colinas, me perguntei: por que as pessoas não estão morando aqui?”.

Ao lado do sócio Clécio Fonseca, ele acredita que o bairro vai vingar como um destino para quem busca qualidade de vida e uma comunidade onde as crianças possam caminhar sozinhas pelas ruas.

“Eu não conheço ninguém que queira criar seu filho para ser um piá de prédio,” ele disse.

Embora não seja murado, o bairro terá apenas um ponto de acesso, a da entrada dos carros (que dá acesso à BR-101 que separa Camboriú de Balneário Camboriú), porque as próprias colinas servem de proteção, além das 160 câmeras de segurança.

“Há pessoas que chegam aqui e não gostam do fato de o bairro não ser um condomínio fechado, mas aí são pessoas que querem viver numa muralha, sem sair,” disse Thomas.

O projeto da FHaus, batizado de Athene Garden, tem VGV de R$ 160 milhões e deve começar a ser construído no fim do primeiro semestre do ano que vem.

Em relação a outras incorporadoras que podem desembarcar no bairro, Luian diz que o Colinas quer atrair “quem tem uma nova mentalidade”, de trazer a natureza para dentro dos projetos.

“Eu sou fã do trabalho da FG e eles têm o público deles, mas aqui não vai caber uma moldura neoclássica, de muitos andares, com vidro do começo ao fim. Aqui os projetos vão pedir identidade.”

Segundo ela, em cinco anos o bairro já deverá estar vivendo a sua vida de bairro.

“Certamente já teremos 80% das casas construídas, e pelo menos a escola já estará em plena operação.”

O bairro já tem 15 casas prontas, com 12 famílias morando, e cerca de 50 projetos aprovados.

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