A Justiça do Rio decretou na semana passada a falência da LSH Barra Empreendimentos, a empresa que era dona do primeiro hotel da marca Trump na América do Sul, construído na Barra da Tijuca.
A falência é o último capítulo de uma história que começou com a promessa de surfar a demanda esperada para as Olimpíadas do Rio, mas terminou em acusações de desvio de dinheiro e fraude.
Agora, o imóvel será herdado por um fundo da Polo Capital que é credor do empreendimento. O plano da gestora é reformar o ativo para atrair uma nova bandeira e pegar carona na retomada do mercado de hotéis da cidade, uma fonte a par do assunto disse ao Metro Quadrado.
O projeto do antigo hotel começou a ser desenvolvido em 2013, em meio à euforia com as Olimpíadas de 2016 e ao bom momento da economia do Rio.
“Já era governo Dilma, mas a Lava Jato ainda não tinha estourado forte, então o estado ia muito bem graças ao setor de petróleo e todo mundo pensava: cabe mais hotel no Rio,” disse um especialista do setor.
O LSH foi idealizado por um grupo de empresários que incluía o jornalista Paulo Figueiredo, neto de João Figueiredo e acusado pela PGR por tentativa de golpe de Estado.
Figueiredo e outros investidores levantaram um FIP de R$ 250 milhões para tocar o projeto de 12 mil metros quadrados e 175 quartos, com fundos de pensão estaduais e municipais participando da captação.
A LSH anunciou em 2014 que o hotel seria operado pela marca Trump Hotels, dois anos antes de Donald Trump concorrer à presidência dos Estados Unidos pela primeira vez, em 2016.

Mas a economia do Rio começou a se deteriorar nos anos seguintes, com a repercussão da Lava Jato levando a Petrobras a reduzir investimentos e a crise do governo Dilma afetando todo o País.
O hotel foi inaugurado em agosto de 2016, a tempo do início dos jogos como prometido, mas com apenas 75 quartos em operação.
Além de inacabado, o ativo também esbarrou na inexperiência da bandeira com o mercado brasileiro.
“A Trump é uma empresa hoteleira relativamente pequena, operando só nos EUA, e abriram um hotel que nunca ficou concluído, então logo perceberam que tinham entrado numa roubada,” disse o especialista.
Poucos meses depois, em dezembro, a Trump Hotels deixou o empreendimento, e o LSH assumiu a gestão, com Paulo Figueiredo na posição de CEO do negócio.
Em 2018, ainda havia dois andares em construção, e a LSH não tinha dinheiro para concluir a obra, conforme mostrou uma inspeção feita à época pela Superintendência de Fiscalização Externa da CVM.
Um ano depois, Paulo Figueiredo e outros empresários ligados ao FIP do LSH foram citados em uma operação da Polícia Federal que investigava fraudes em fundos de pensão. Eles foram acusados de pagarem propina ao BRB para garantir investimentos.
A PF também disse que Figueiredo e os demais investidores se associaram para desviar valores investidos no fundo para seus patrimônios pessoais.
A investigação dizia ainda que houve valorização artificial por meio de aportes no FIP e de endividamento via emissão de debêntures.
Figueiredo chegou a ser preso em Miami no âmbito da operação, além de ter sido condenado e multado pela CVM por desvios de recursos da LSH Barra.
Hoje, o jornalista vive nos EUA, onde atua como blogueiro e articulador político junto à família Bolsonaro.
A LSH Barra entrou em recuperação judicial ainda em 2019 e não conseguiu a aprovação dos credores para um plano de RJ.
A empresa já havia tido a sua falência decretada no início do ano passado, mas conseguiu reverter a decisão, até falir novamente neste mês.
Em um leilão judicial, o prédio foi avaliado em R$ 158,6 milhões, mas ninguém se interessou.
“É muito difícil fazer uma compra dessa no escuro, sem acesso aos fluxos de caixa e com incerteza quanto ao entendimento dos contratos do antigo operador,” disse uma fonte do mercado.
Como ninguém levou o imóvel, a propriedade foi transferida ao fundo da Polo, uma vez que o ativo estava em garantia pelas debêntures. Os antigos donos têm 30 dias para deixar o prédio depois da falência decretada.
Até então, o hotel operava sob a bandeira Lifestyle Laghetto Collection, que entrou com um processo contra a LSH neste mês por inadimplência e cobra cerca de R$ 3,5 milhões em pagamentos atrasados referentes à administração e ao marketing do hotel.
O imóvel está desgastado, mas tem potencial para retomar as operações com uma mudança de posicionamento, fontes que conhecem o ativo disseram ao Metro Quadrado.
“O mercado do Rio está indo muito bem, mas Barra da Tijuca é diferente de Copacabana, Leblon e Ipanema, então ele não pode ser precificado como um hotel de luxo,” disse um consultor do setor.
Para o especialista, o LSH se enquadra melhor no patamar de upper mid-scale – um degrau abaixo do luxo.
Os hotéis de luxo do Rio registraram um RevPAR – a receita média por quarto disponível, na sigla em inglês – de R$ 824 e ocupação de 73,8% em 2025, segundo dados do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil.
A categoria midscale apresentou uma taxa de ocupação parecida, de 72,5%, no mesmo período, mas com menos da metade do RevPAR, que ficou em R$ 386.




