Por que uma mega loja da Oscar Freire está vazia há três anos

Por que uma mega loja da Oscar Freire está vazia há três anos
Wesley Gonsalves |

Um dos pontos mais cobiçados da Rua Oscar Freire – que já abrigou a flagship da Riachuelo – está completando três anos vazio e com uma placa de “aluga-se”.

Não, a Oscar Freire não está em baixa. Pelo contrário, foi a via comercial que mais se valorizou no mundo no ano passado, segundo a Cushman & Wakefield.

O que está impedindo o imóvel de ser ocupado é o alto valor que o proprietário está pedindo para a locação do espaço de R$ 1,2 mil metros quadrados, de cerca de R$ 500 mil, conforme apurou o Metro Quadrado.

O metro quadrado, portanto, está saindo a R$ 416.

É difícil comparar com uma média da região porque as consultorias não costumam fazer levantamentos de preços só para lojas, mas a média para imóveis comerciais no geral (incluindo escritórios) no entorno da Oscar Freire está em R$ 166,90, segundo a Buildings.

Segundo brokers que operam na região, o preço elevado para a antiga loja da Riachuelo indica que a intenção do dono é não alugar mesmo. Eles dizem que a valorização da rua fez com que alguns proprietários optassem por manter imóveis fechados, à espera de propostas de aquisição.

A via, que já foi um corredor do luxo na cidade e abrigou alguns dos principais nomes da gastronomia paulistana, aos poucos foi perdendo espaços destinados a bares e restaurantes e aumentando a sua vocação residencial, com as incorporadoras interessadas em fazer projetos perto do metrô para se beneficiar dos incentivos do Plano Diretor.

Hoje, grandes incorporadores brigam pelos poucos ativos disponíveis que possam viabilizar futuros projetos residenciais ali.

“Quem vai querer alugar um imóvel desse tamanho hoje, com um contrato de cinco anos, quando ele pode esperar um pouco e receber uma proposta milionária para a construção de um prédio?,” um broker disse ao Metro Quadrado.

Mesmo com mais lançamentos nos últimos anos, dados da Urban Systems apontam que a região tem apenas 8% de estoque disponível, enquanto o metro quadrado dos apartamentos na via é negociado, em média, por R$ 19,7 mil.

A Guararapes, dona da Riachuelo, entregou o imóvel em 2023, em meio à crise econômica no pós-pandemia. A empresa ocupou o espaço por mais de 10 anos, antes de fechar a unidade.

Esses pedidos mais altos de locação provavelmente contribuíram para a Oscar Freire ter sido a via comercial que mais se valorizou em 2025, chegando a uma média de US$ 120 no trecho mais nobre da rua, no levantamento da Cushman.

A antiga flagship não é o único imóvel desocupado na área.

Gabriel Pinheiro, líder executivo da Associação de Bares e Restaurantes (Abrasel-SP), diz que, com o aumento da especulação imobiliária na região, a oferta de bares e restaurantes caiu drasticamente nos arredores da Oscar Freire.

Segundo Gabriel, a redução desses negócios não apenas diminuiu a oferta de serviços no entorno, como também afeta o funcionamento urbanístico da área.

Para ele, a função desses estabelecimentos vai além da alimentação e ajuda a manter o bairro vivo.

“É importante entender: são os bares e restaurantes que trazem vida à rua,” disse Gabriel. “Matar o movimento da região é a pior decisão que o mercado imobiliário pode tomar.”

Se a saída dos bares da Oscar Freire “apaga as luzes” do bairro, uma das soluções previstas na legislação é a construção de imóveis de uso misto, com fachadas ativas.

Na avaliação de Gabriel, contudo, os novos empreendimentos residenciais se beneficiam do regramento urbanístico, mas não são pensados para receber operações de alimentação.

Ele lembra que bares e restaurantes precisam de uma infraestrutura específica para operar, o que dificilmente aparece nesses projetos.

“A ideia é ótima, o problema está sendo a forma como ela está sendo operacionalizada. O setor de bares e restaurantes é importante porque é onde a vida acontece depois das 18h, quando tudo em volta fecha,” disse.

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