Opinião/ Fundos imobiliários superam o rótulo de “moda”

Os fundos imobiliários vivem um momento especialmente revelador no mercado brasileiro.
Mais do que uma expansão pontual de volume ou uma onda passageira de interesse, o que os números indicam é um crescimento estrutural, com avanços quantitativos e qualitativos.
De acordo com um levantamento da B3, os últimos anos registraram um forte crescimento da base de investidores e do volume negociado, o que por si só já é motivo para comemoração.
Mas ao cruzar esses números com os perfis dos investidores, percebemos também o quanto esse mercado tem se tornado relevante, tanto para investidores experientes e com carteiras sofisticadas quanto para quem está dando os primeiros passos além da caderneta de poupança e experimentando a renda variável.
Em março de 2026, os fundos imobiliários alcançaram volume recorde de negociação, de R$ 11,4 bilhões, com alta de 80% sobre março de 2025, enquanto o volume médio diário negociado chegou a R$ 517 milhões.
No acumulado dos dois primeiros meses do ano, a média diária negociada já vinha 49,8% acima da média de 2025, mostrando que o pico alcançado em março não teve como raiz apenas fatores que normalmente influenciam os preços na renda variável, como variação da taxa de juros, ruídos políticos ou instabilidade no cenário global, mas algo estrutural, parte de uma trajetória que vem sendo construída há anos.
Mercados se fortalecem de fato quando conseguem combinar entrada de novos participantes com aumento de liquidez e eficiência de negociação. É exatamente esse movimento que os fundos imobiliários vêm mostrando.
No mesmo movimento, a base de investidores superou 3 milhões no início deste ano. Quando esse desempenho é analisado em uma janela mais longa, o sinal fica ainda mais forte. Cinco anos atrás, o número de investidores com FIIs na carteira era de 1,6 milhão, ou seja, a base praticamente dobrou.
Ao mesmo tempo, o valor médio aplicado por investidor diminuiu de aproximadamente R$ 14,5 mil para cerca de R$ 3,9 mil; e 73,6% desses investidores com posição em custódia são pessoas físicas.
Ao combinar esses dados, temos o verdadeiro retrato da evolução do produto: os FIIs ampliaram escala sem perder atratividade e passaram a alcançar um público muito mais amplo, incluindo pessoas com poder aquisitivo mais baixo ou que estão dando os primeiros passos para construção da sua carteira.
Esse movimento se conecta a transformações mais amplas do ecossistema financeiro.
A digitalização das plataformas, a disseminação de conteúdo sobre investimentos e a busca crescente por diversificação e renda passiva ajudaram a colocar os FIIs em uma posição particularmente relevante dentro da renda variável.
Outro ponto que chama atenção, no recorte de pessoas físicas, é a combinação entre renovação e maturidade.
Hoje, os investidores entre 25 a 39 anos representam 44% da base de pessoas físicas em FIIs, o que mostra forte aderência do produto a uma nova geração de investidores.
Ao mesmo tempo, os investidores com mais de 60 anos, embora representem apenas 8,6% da base, concentram cerca de 37% de todo o estoque investido, com valor mediano por pessoa próximo de R$ 67 mil.
As mulheres, embora ainda representem apenas 26% dos investidores, superam os homens em quase R$ 2 mil na média de volume em custória. Em março de 2026, as investidoras contavam, em média, com R$ 5,3 mil investidos em fundos imobiliários, contra cerca de R$ 3,5 mil entre os homens.
Esse retrato é especialmente relevante porque mostra a versatilidade da classe. Os FIIs funcionam como porta de entrada para quem começa a construir patrimônio, mas também seguem sendo uma alternativa relevante para investidores mais experientes, com maior capacidade de alocação.
Os dados demográficos também reforçam que existe espaço relevante para ampliação da participação feminina, mas que já contamos com engajamento qualificado nesse público.
Também vale destacar que a expansão do mercado não está restrita ao varejo. O diagnóstico avança ao mostrar que investidores institucionais e estrangeiros já respondem por mais da metade do volume negociado, sinalizando que a classe amplia seu espaço em diferentes estratégias de investimento.
Talvez a melhor síntese para esse momento seja a de que os fundos imobiliários já superaram a fase em que eram percebidos apenas como um nicho, e acompanham a evolução do próprio investidor brasileiro.
O que vemos agora é um segmento com massa crítica, liquidez crescente, presença relevante de pessoas físicas, interesse de investidores mais sofisticados e espaço concreto para continuar avançando.
Marcos Skistymas é diretor de produtos listados da B3.







