Edo Rocha: o lado artístico do arquiteto do estádio do Palmeiras

Edo Rocha já era artista antes de se tornar arquiteto.
É esta a história de origem que define a exposição Edo Rocha: Arte e Arquitetura, que fica em cartaz na Oca, no Parque Ibirapuera, de 6 de maio a 19 de julho.
Com curadoria do arquiteto Agnaldo Farias, a mostra busca estabelecer um diálogo entre a produção arquitetônica de Edo, repleta de obras de grande porte e apuro técnico, e seu lado mais artístico, alimentado desde a juventude.

“Acho que é como se eu trabalhasse o tempo todo com os dois hemisférios do cérebro, um focado na parte técnica e outro na parte artística,” Edo disse ao Metro Quadrado.
Ao todo, são cerca de 500 obras — entre desenhos, pinturas, esculturas, fotografias, maquetes, banners e instalações — que recriam o universo criativo de Edo Rocha e revelam como arte e arquitetura se entrelaçam ao longo de seus 60 anos de carreira.
Nascido em São Paulo, Edo se mudou na adolescência para Salvador, onde começou a pintar. Entre os 13 e 14 anos, estudou com os artistas Adam Firnekaes e Carybé.
“Firnekaes ensinou Edo a ‘ver arte’ antes de sair pintando. E o Carybé ensinou a prestar atenção nos contornos e estruturas das coisas,” Agnaldo disse ao Metro Quadrado.
Esse repertório inicial aparece logo na primeira ala da mostra, que reúne obras do período em que o artista participou do Salão da Bahia e das Bienais de São Paulo de 1967 e 1969. São trabalhos anteriores ao seu retorno a São Paulo, na década de 1970, para estudar na FAU-USP.
É a partir desse ponto que a arquitetura passa a ocupar o centro de sua produção. “Hoje, ele é um arquiteto muito bem-sucedido, com projetos bastante complexos. Ninguém recebe esse tipo de encomenda se não for francamente competente,” diz o curador.

Na exposição, essas duas facetas do arquiteto aparecem sempre juntas. Obras de arquitetura são apresentadas ao lado de criações artísticas que não necessariamente dialogam de forma direta, mas revelam aproximações conceituais.
“Demonstramos dessa maneira a simbiose entre arte e arquitetura. A ideia é tratar dessa influência estética,” disse Edo.
No térreo, a presença da música – outra camada importante da sua formação – surge em uma instalação com piano de cauda capaz de reproduzir performances de pianistas renomados, sincronizadas a projeções em vídeo.
O ambiente também recupera a juventude em Salvador, quando ele mantinha um programa de jazz na rádio do pai. “Edo é tão técnico que é até capaz de projetar equipamentos de acústica, uma das suas paixões,” conta Agnaldo.
Essa expertise ficou evidente no projeto do estádio do Palmeiras (antigo Allianz Parque e atual Nubank Parque), que ocupa posição central na mostra. Sua obra mais conhecida ganhou uma instalação dedicada, acompanhada dos quadros Onda Verde e Palmeiras.
Nesse pavimento, há também um conjunto de maquetes, desenvolvidas especialmente para a mostra, com projetos famosos de Edo – incluindo seus inúmeros edifícios corporativos – organizados em uma espécie de rua fictícia. Esculturas em granito e peças metálicas e espelhadas da série Os três mosqueteiros completam esse espaço.
No segundo nível, a fotografia ganha protagonismo em três séries autorais.
Em Japão, Edo reúne imagens feitas em uma viagem ao país em 2011. Já Wabi Sabi consiste em registros de três décadas em torno da beleza da imperfeição, da impermanência e da simplicidade. Em O Cosmo, trabalho desenvolvido entre 1967 e 1968, há fotogramas, fotografias e uma instalação com 80 monitores suspensos criando um efeito de caleidoscópio.
A preocupação com sustentabilidade, uma premissa de seu trabalho em arquitetura, aparece em uma instalação audiovisual central que aborda temas como crise hídrica, aumento das emissões de dióxido de carbono e intensificação de eventos climáticos extremos.
Segundo Edo, o filme é uma mensagem às futuras gerações sobre uma prática que ele considera fundamental na arquitetura. “Calculamos no escritório que temos quase 1 milhão de m² em prédios certificados pelo Green Building Council,” afirmou.
Para Agnaldo, é justamente esta capacidade de enxergar o mundo e a sensibilidade artística que sustentam a exposição. “É uma retrospectiva que mexe com uma vida inteira de produção, que não é tão conhecida do grande público,” disse o curador.
Na avaliação de Edo, revisitar todo o seu processo criativo foi uma maneira de notar que “nunca houve repetição no trabalho. Apenas a evolução do pensamento.” Uma leitura que resume bem o espírito da mostra.
O crédito das imagens no corpo do texto é Edo Rocha Arquiteturas.







