Mercado está perdendo o medo de prédios tombados, diz arquiteto

Mercado está perdendo o medo de prédios tombados, diz arquiteto

Quando o arquiteto Samuel Kruchin começou a trabalhar com o restauro de edifícios históricos, quatro décadas atrás, disseram-lhe que não havia mercado no setor privado para este tipo de trabalho.

Hoje, com a escassez de terrenos em São Paulo, mais incorporadoras estão considerando comprar imóveis antigos ou tombados — e Samuel está vendo o restauro finalmente ganhar espaço.

“As incorporadoras estão perdendo o medo dos imóveis tombados,” ele disse ao Metro Quadrado.

Para ele, o mercado vem compreendendo o valor agregado desses edifícios. “À medida que você constrói critérios de segurança jurídica para o investidor, esses imóveis passam a ser mais atraentes,” disse.

O arquiteto abriu seu escritório no início dos anos 1980, após sair do emprego no Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico).

Para conseguir trabalho, bateu à porta de dois proprietários de edifícios históricos e saiu das reuniões com contratos fechados.

Os primeiros projetos foram o Edifício Sampaio Moreira e a Casa da Bóia, ambos no centro de São Paulo.

“Na época, essa ideia de que era possível intervir nesses edifícios e torná-los interessantes do ponto de vista imobiliário, reestruturando seu valor, ainda era muito nova,” disse.

O Sampaio Moreira – inaugurado em 1924 e desenhado pelos arquitetos Christiano Stockler e Samuel das Neves – é considerado o primeiro arranha-céu da capital paulista e hoje abriga a Secretaria Municipal de Cultura.

Já a Casa da Bóia, construída em 1911, pertenceu a Rizkallah Jorge Tahan e funcionou, por quase 125 anos, como uma tradicional fábrica de produtos hidráulicos. Recentemente, se tornou um espaço cultural.

Na avaliação do arquiteto, seu início de carreira coincidiu com uma mudança na forma como o patrimônio histórico passou a ser entendido no Brasil.

“Foi entre as décadas de 1970 e 1980 que a arquitetura eclética começou a ser valorizada do ponto de vista da preservação. Até então, o foco estava na arquitetura colonial, considerada a única expressão da identidade brasileira,” disse.

A decisão de apostar no nicho veio também da percepção de que o País carecia de conhecimento técnico sobre o tema — algo que viveu na prática durante sua passagem pelo Condephaat.

“Não existiam sequer traduções das publicações italianas, inglesas ou francesas. A gente vivia num completo obscurantismo com relação a essas coisas. Havia um trabalho interessante por fazer, de começar a construir um espaço teórico,” disse.

A partir dessa lacuna, Kruchin desenvolveu metodologia própria e formou uma equipe especializada. Em 1999, passou a estruturar os primeiros cursos acadêmicos na área para capacitar novas gerações de arquitetos.

Vieram então projetos de grande porte, como a restauração da Bolsa do Café, em Santos, do Edifício São João e do Palácio da Justiça, ambos no centro de São Paulo. 

Mais recentemente, ele desenvolveu também o projeto do Parque Augusta, ampla área verde que incorporou elementos históricos da região. 

Para ele, é fundamental diferenciar um projeto de restauro de um projeto de retrofit, frequentemente tratados como sinônimos.

Enquanto o retrofit é um termo mais amplo, que propõe atualizar a infraestrutura técnica e operacional de um imóvel, o restauro parte dos valores históricos e simbólicos da construção para orientar os limites da intervenção. Isso não significa congelar os edifícios antigos no tempo.

“O restauro não é um corpo de regrinhas, mas uma poética que os arquitetos podem construir. Ou seja, é uma forma de dialogar com a contemporaneidade,” disse.

É desta maneira que ele vem trabalhando na sede da Dataprev, instalada na antiga Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira, no Brás.

O desafio é executar uma obra complexa de reforma em um imóvel tombado de mais de 6 mil metros quadrados sem interromper a operação da empresa pública de tecnologia.

“Quando você faz um projeto desses, ocorre uma convergência de imaginários. Estamos trabalhando com aquilo que vai para o futuro e aquilo que vem do passado,” disse.

Segundo Kruchin, esse tipo de intervenção urbana, além de preservar a história da arquitetura na cidade, pode ajudar a desenhar novos cenários para o mercado com empreendimentos que unem o antigo e o novo.

Quando ele desenhou, por exemplo, a Praça Pamplona, nos Jardins, combinou volumes contemporâneos – como um teatro digital e um planetário – a um casarão da década de 1930 tombado.

No projeto do Edifício Edith Blumenthal, também juntou construções de diferentes épocas. Desenvolveu um prédio contemporâneo nos fundos de um terreno de casas históricas, cujas fachadas foram tombadas e preservadas.  

Diante dos custos elevados que envolvem um restauro, Kruchin acredita que o patrimônio histórico pode até vir a ocupar o nicho de altíssimo padrão na incorporação imobiliária.

“Acho que o restauro pode se tornar um artigo de luxo, sim. Estamos falando de valor de mercado. Esse tipo de empreendimento é capaz de alavancar o valor imobiliário e atrair os recursos necessários para viabilizar as obras,” disse.

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