Os jogos do futebol brasileiro foram interrompidos para o início da Copa do Mundo, mas alguns dos principais estádios do País ainda estão gerando receita.
São arenas que já há algum tempo não se limitam mais a serem palcos para partidas – e estão também sendo geridas como projetos imobiliários multiusos, com espaço para abrigar lojas, restaurantes e até escritórios.
A estratégia tem sido recorrer a áreas ociosas para diversificar as fontes de receita, indo além dos ingressos e naming rights – em especial nos estádios que estão em cidades com menos tradição no futebol, como Brasília, que tem o Mané Garrincha, uma das arenas construídas para a Copa de 2014.
Lá, antigos camarotes foram convertidos em escritórios, que já abrigam mais de 100 empresas.
A ideia surgiu quando os administradores perceberam que, mesmo somando as partidas de futebol, os shows e outros eventos, o estádio ainda passava a maior parte do ano sem atividades.
“Começamos a nos perguntar: ‘se o ano tem 365 dias, e o estádio passa 30 dias ocupado, o que fazemos com o restante?’,” Richard Dubois, o presidente da Arena 360, que gerencia o estádio, disse ao Metro Quadrado.
Hoje, o complexo reúne cerca de 15 mil metros quadrados de área locável e opera com ocupação total.
Os espaços chegaram a alcançar aluguéis próximos de R$ 300 por metro quadrado – quase o triplo dos R$ 110 cobrados inicialmente.
Além dos escritórios, as empresas instaladas no local podem usar os próprios camarotes para receber clientes durante shows e partidas, transformando um espaço originalmente pensado para assistir aos eventos em uma extensão do ambiente de trabalho.
Desde o lançamento do projeto, a operação já passou por duas expansões de andares e uma terceira está em desenvolvimento.
“Nas últimas duas etapas, chegamos a ter uma fila de espera equivalente à área que estava sendo colocada para locação,” disse Rafael Roda, sócio da TRK Imóveis, que fez o projeto de escritório do Mané Garrincha.
No estádio do Palmeiras – o antigo Allianz Parque, agora chamado de Nubank Parque –,uma das novas fontes de receita fica no topo do edifício-garagem.
O espaço, que funciona como área de hospitalidade durante partidas e shows, hoje também recebe congressos, lançamentos de produtos e até leilões de gado. Para isso, os elevadores de carga precisaram ser projetados para transportar os próprios animais até o local.
A WTorre, que administra o estádio, também investiu em restaurantes na arena e decidiu instalar seu próprio escritório no Nubank Parque. O projeto acabou crescendo e deu origem a um coworking.
“Nós éramos a âncora desse espaço. A partir dessa necessidade própria, entendemos que outras empresas poderiam ter interesses parecidos e surgiu a ideia de ampliar a operação,” Marcelo Frazão, o vice-presidente executivo da WTorre, disse ao Metro Quadrado.
Para Amir Somoggi, fundador da consultoria Sports Value, os administradores de estádios têm entendido esses espaços cada vez mais como ativos imobiliários.
“Os estádios estão começando a trabalhar como shopping centers. Já que os donos não vão vender o espaço, eles começam a pensar como dá para rentabilizar os diferentes espaços dentro dele,” disse Somoggi.
O avanço desse tipo de iniciativa também está ligado a uma mudança na forma como as arenas passaram a ser projetadas.
Enquanto estádios mais antigos costumam enfrentar limitações de acesso, circulação e infraestrutura, parte dos empreendimentos mais recentes já nasceu com a proposta de ser multiuso.
A lógica já é comum em mercados mais maduros, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Estádios como o do Tottenham, em Londres, e o reformado Santiago Bernabéu, em Madri, passaram a incorporar restaurantes, experiências de hospitalidade e outros usos permanentes dentro de suas estruturas.
No Brasil, a tendência ainda avança de forma gradual porque depende de arenas capazes de acomodar atividades simultâneas. Coberturas preparadas para shows, acessos independentes, áreas de carga e descarga e espaços isolados para operações corporativas fazem parte de uma infraestrutura que muitos estádios antigos simplesmente não possuem.
Os espaços ociosos dos estádios também deram origem a operações de hospitalidade, como a Soccer Hospitality, que transforma áreas com baixa utilização em camarotes voltados ao entretenimento dos torcedores.
A empresa começou em 2018 com um espaço para 96 pessoas no então Allianz Parque e atualmente ocupa cerca de mil lugares dentro da arena palmeirense, além de estar presente em 14 estádios pelo País.
Em vez de pagar aluguel, a empresa assume a operação dos espaços, investe na estrutura e divide a receita com os estádios.
Em alguns desses camarotes, a Soccer oferta serviços de barbearia, tatuagem e maquiagem. Há também a realização de eventos corporativos e até mesmo dias com estandes de lançamentos imobiliários.
“Nós pegamos o modelo americano, que é o melhor de entretenimento do mundo, e abrasileiramos,” Léo Rizzo, CEO da Soccer Hospitality, disse ao Metro Quadrado.




