Uma nova leva de data centers voltados à inteligência artificial está colocando Fortaleza no mapa de um mercado até hoje dominado por São Paulo e Campinas.
A capital cearense ainda tem uma operação pequena, de 19 megawatts (MW), mas concentra hoje o maior volume de nova capacidade em construção entre as regiões do País acompanhadas pela JLL, à frente dos dois principais polos.
(Diferentemente de outros segmentos imobiliários, esse mercado é medido pela potência disponível para os equipamentos, e não pela área construída).
Os projetos em andamento vão acrescentar 227 MW à capacidade de Fortaleza, quase 12 vezes o que a cidade tem hoje e um volume superior ao que está sendo construído nos dois grandes polos do Brasil: são 222 MW em São Paulo e Barueri e 195 MW em Campinas.
Por enquanto, a maior parte desse salto está concentrada em um único projeto, que responde por 200 MW dos 227 MW em construção e já está pré-contratado no modelo built-to-suit.
Ainda assim, a JLL considera que Fortaleza tem fundamentos para sustentar um crescimento além desse empreendimento.
“Esse projeto vai acelerar a expansão do mercado, trazendo todo um ecossistema de data centers de outras empresas para a região,” Bruno Porto, gerente de logística da JLL, disse ao Metro Quadrado.
Parte do apelo de Fortaleza para os novos projetos está debaixo do mar, já que a cidade é o principal ponto brasileiro de conexão de cabos submarinos e está fisicamente mais próxima da Europa e da América do Norte do que São Paulo.
Segundo a JLL, essa posição pode reduzir entre 10 e 30 milissegundos o tempo de resposta das conexões internacionais, uma diferença relevante para operações que dependem da transmissão de dados em tempo real.
A proximidade dos cabos também permite processar os dados sem que eles precisem percorrer milhares de quilômetros até São Paulo e voltar, reduzindo custos de transmissão, enquanto a presença de diferentes rotas internacionais permite redirecionar o tráfego caso algum cabo apresente problemas.
Além da conectividade, Fortaleza reúne energia renovável a preços competitivos, disponibilidade de terrenos e proximidade com outras capitais nordestinas.
Nas grandes operações de hyperscale, acima de 2 MW, o preço pedido chega a US$ 208 por kW por mês, sem considerar energia, ante US$ 135 em São Paulo e Barueri e US$ 145 em Campinas.
Fortaleza também lidera no segmento de varejo, com US$ 385 por kW por mês, contra US$ 338 em São Paulo e Barueri e US$ 320 em Campinas.
A escala do novo projeto na capital cearense tem relação com uma mudança recente na própria indústria, que passou a demandar estruturas maiores para atender ao crescimento da inteligência artificial.
Com isso, o mercado brasileiro de data centers está passando por uma expansão acelerada, com 706 MW em funcionamento e outros 660 MW em construção, dos quais 56% já estão pré-contratados.
A fila é ainda maior: há 4,6 mil MW em projetos planejados, e uma expectativa da JLL de que o mercado dobre de tamanho até 2030.
O crescimento já vinha sendo puxado pelo uso maior de armazenamento em nuvem e ganhou uma nova frente com a inteligência artificial.
Só no primeiro semestre deste ano foram entregues 106 MW no País, um recorde para um semestre, e outros 134 MW são esperados até dezembro.
A expansão coincide ainda com o avanço do Redata em Brasília, o regime especial de tributação do segmento, que pode reduzir o custo dos próximos investimentos no setor.
O regime foi aprovado pelo Congresso no início de setembro e segue para sanção presidencial, prevendo a suspensão de tributos federais sobre equipamentos destinados à implantação e ampliação de data centers.
No mercado imobiliário, a expansão dos data centers tende a aumentar a diferença entre terrenos que estão ou não preparados para receber esses projetos.
“Grande parte da energia dos próximos anos já está destinada a empresas que possuem ou alugam terrenos na região,” disse Porto. “O impacto nos preços, de forma mais significativa, deve ser sentido apenas em áreas que já possuem essa garantia de energia, uma vez que aquelas que não possuem terão um horizonte muito longo para a disponibilidade de energia.”




