A briga na Ribeiro Caram

A briga na Ribeiro Caram
Wesley Gonsalves |

Assim como em Hamlet, a morte do patriarca foi apenas o primeiro ato de uma disputa por poder em uma tradicional construtora paulista. 

Na Ribeiro Caram, de um lado estão a viúva e os herdeiros, que têm 70% da empresa. Do outro, o sócio minoritário Sadak Leite, dono dos outros 30% – uma fatia doada pelo próprio fundador, Cezário Ribeiro Caram.

Pouco mais de um ano após a morte do fundador, os sócios travam na Justiça uma guerra pelo controle da companhia – que levou à destituição de Sadak do posto de CEO e à contratação de um executivo do mercado.

Fundada em 1997 por Cezário, um empresário carismático e querido mesmo entre seus concorrentes, a Ribeiro Caram se tornou uma das maiores construtoras de obras de grande porte do País, com atuação em segmentos como shopping centers e galpões logísticos.

Cezário morreu precocemente em junho do ano passado, aos 68 anos, vítima de um acidente de moto, deixando a mulher, Mariana, cinco filhos – dois deles do primeiro casamento – e um neto.

Após a morte de Cezário, Sadak assumiu a presidência como parte de uma transição que já era “programada pelo fundador,” segundo executivos do setor.

O arranjo, no entanto, desagradava os herdeiros, sócios majoritários da companhia. “A família queria alguém novo e que representasse seus próprios interesses,” disse uma fonte a par do assunto.

Nos bastidores, os herdeiros e Sadak tentaram negociar a saída dele do posto de CEO, mas as conversas pouco avançaram.

Uma carta escrita por Sadak – indicando sua disposição em sair do cargo após um determinado período – serviu de base para a convocação, a toque de caixa, de uma reunião entre os sócios para votar sua destituição.

Em junho, os herdeiros destituíram Sadak da presidência e colocaram em seu lugar Diego Baez, um executivo de mercado com pouca experiência na construção civil.

Desde o falecimento de Cezário, as operações na Ribeiro Caram eram tocadas por Sadak, com pouca participação dos herdeiros, disse uma fonte próxima aos Ribeiro Caram. 

“Esta não é uma família que tenha experiência executiva. Eles podem ter caído em um mal aconselhamento, mas também não queriam deixar um sócio minoritário à frente da empresa,” disse outro executivo.

Baez, hoje no comando da construtora, tem uma carreira construída majoritariamente em consultorias, com passagens pela Arthur Andersen, PwC e Heartman House Consultores, onde foi sócio. Também trabalhou na área de supply chain da Microsoft nos Estados Unidos.

A escolha do seu nome – até então desconhecido no segmento de obras logísticas – surpreendeu alguns dos principais players do setor.

“Se esse cara é o nome certo? Eu fiquei em dúvida. Não me convenceu, mas pode ser que ele performe bem, nunca se sabe,” disse ao Metro Quadrado um executivo do setor.

Ao assumir o cargo, Baez chegou a dar entrevistas agradecendo pelo trabalho de seu antecessor e falando sobre os planos para a transição da liderança, como a criação de um conselho de administração do qual participariam Sadak e os herdeiros.

“Queremos trazer os sócios muito mais para perto do negócio,” ele disse ao Metro Quadrado, logo após assumir o cargo.

Apesar do tom harmonioso, nos bastidores a disputa entre os sócios ganhava contornos tão gelados quanto as noites no reino da Dinamarca.

A troca no comando chegou a abrir uma disputa judicial, com acusações de ambos os lados.

Em uma assembleia societária agendada para setembro, a Ribeiro Caram votaria uma proposta para ingressar com uma ação de responsabilidade civil contra Sadak.

A assembleia, no entanto, foi suspensa pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), que atendeu a um recurso do sócio minoritário e determinou uma análise “mais profunda” do caso.

A defesa do ex-CEO também acionou o TJSP para restabelecer seu acesso às contas de email corporativo e a informações operacionais da empresa.

Procurada, a família disse em nota que não comentaria o tema por se tratar de um processo que corre em segredo de Justiça.

Ao Metro Quadrado, Sadak acusou a família de agir de má-fé, “omitindo atos e acordos negociados”, além de tentar manchar a sua imagem.

“Do meu lado, fico muito triste com o destino da empresa em que trabalhei por mais de 20 anos e que construímos junto com Cezário,” ele disse.

Do ponto de vista dos negócios, o sócio, que detém 30% da companhia, afirma que a Ribeiro Caram já perdeu R$ 1 bilhão em novos negócios desde sua saída.

A família, por sua vez, acusa Sadak de dificultar o acesso às informações financeiras da companhia e diz em nota ter identificado “atos que, em seu entendimento, demandam apuração quanto ao cumprimento dos deveres do então administrador.”

“A prioridade da família controladora permanece sendo a estabilidade, a boa governança e a perenidade do Grupo Ribeiro Caram,” disseram os herdeiros em nota.

Com a disputa entre os sócios extrapolando os canteiros de obras, há no mercado uma preocupação sobre o futuro da companhia, especialmente sobre a manutenção de contratos. 

Após assumir como CEO, Baez iniciou uma rodada de visitas a parceiros e clientes para explicar a transição e tentar acalmar os rumores sobre a disputa entre os sócios. 

Ao que tudo indica, a batalha judicial e pelo controle da Ribeiro Caram ainda está longe do último ato. Por ora, falta muito para que “o resto seja silêncio”.

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