A engenheira com medo de altura que virou autoridade em 'supertalls'

A engenheira com medo de altura que virou autoridade em 'supertalls'
Larissa Vitória |

Quem vê a engenheira civil Stéphane Domeneghini à frente de alguns dos projetos mais altos do País dificilmente imaginaria que ela tem medo de altura.

Ela quase caiu da sacada de casa quando criança e até hoje a altura lhe causa pavor, e até mesmo uma escada de dois metros já gera insegurança.

O medo, no entanto, desaparece quando ela entra no canteiro de obras.

Stéphane lidera o projeto do Senna Tower – que fica em Balneário Camboriú e será o maior residencial do mundo –, e acaba de assumir também a presidência da divisão brasileira do Council on Vertical Urbanism (CVU), organização internacional que é referência para edifícios altos.

“Quando eu coloco o capacete, é como se colocasse uma capa ou se existissem duas personalidades. O medo fica para trás e eu vou adiante, tanto é que já subi em andaime suspenso a 180 metros,” ela disse ao Metro Quadrado.

O cargo no Chapter Brasil do CVU é resultado de uma trajetória construída justamente quando Balneário Camboriú iniciava a corrida pelos arranha-céus que mudariam o skyline da cidade.

A engenharia não foi a primeira opção de carreira para Stéphanie, que primeiro cursou psicologia. Mas a afinidade com ciências exatas e a vontade de solucionar desafios a levaram a migrar para a engenharia – primeiro para a elétrica e depois para a civil.

A mudança de curso também provocou uma mudança de endereço, e Stéphanie saiu do interior do Rio Grande do Sul no final dos anos 2000 para cursar engenharia em Balneário Camboriú com bolsa do ProUni.

A cidade, que já era conhecida pelos arranha-céus naquela época, estava prestes a entrar em uma nova fase com edifícios ainda mais altos que consolidariam BC como a Dubai brasileira.

A engenheira participou diretamente dessa corrida primeiro na Embraed – uma das pioneiras do mercado de BC – e depois na concorrente FG Empreendimentos, responsável pelos maiores prédios da cidade.

De lá para cá, ela já assinou mais de 50 projetos acima de 150 metros e é diretora executiva da Talls Solutions, consultoria do grupo FG que é a única da América Latina especializada em supertalls.

Para a engenheira, trabalhar com edifícios de proporções tão grandiosas é uma forma de discutir também o urbanismo nas cidades modernas.

“A verticalidade é uma ótima solução quando não se quer ou não é possível espraiar tanto as cidades e preservar o território,” ela disse. “Mas também é preciso um grande esforço de infraestrutura para criar um ambiente urbano propício aos prédios altos.”

Agora à frente do Chapter Brasil do CVU, Stéphane quer garantir que o País amplie as discussões sobre os supertalls para incluir também o contexto urbano.

O CVU, que até o ano passado era conhecido como Council on Tall Buildings and Urban Habitat, é o responsável por certificar o título de “edifício mais alto do mundo” e tem a maior base de dados do setor.

Fundado nos EUA no final dos anos 60, o conselho é formado por engenheiros, arquitetos, incorporadores e pesquisadores do mundo todo e começou a demonstrar interesse no Brasil há dois anos graças ao trabalho de aproximação feito pela equipe da Talls Solutions nos congressos internacionais.

Stéphane diz que, com a criação oficial de uma divisão nacional do CVU, agora é possível dar mais visibilidade internacional aos projetos desenvolvidos no País.

Em outubro, por exemplo, a engenheira irá até Londres para apresentar no summit do CVU o case da fundação do Senna Tower – que utilizou uma técnica com 798 estacas, inédita para um prédio desse porte – e presidirá o júri de inovação do conselho.

Além disso, o chapter também vai fomentar as discussões dentro de casa. Stéphane e o restante da gestão trabalham para se aproximar de universidades, empresas, entes técnicos e gestores públicos.

O primeiro evento nacional está previsto para 2027.

“Temos condições de discutir com as melhores mentes as condições do Brasil, porque soluções que se aplicam em Vancouver, Singapura e Londres não são imediatamente importáveis para o nosso contexto.”

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