A mansão mais cara do Brasil passou os últimos anos à venda, mas ninguém quis comprá-la para morar.
A família Amaral, da antiga rede carioca de supermercados Disco, buscou vender o imóvel por R$ 220 milhões a alguém que se comprometesse a mantê-lo do jeito que foi construído em 1986, no Jardim Pernambuco, um enclave de mansões no alto Leblon.
Ao que parece, no entanto, já não há mais no público de altíssimo padrão alguém disposto a pagar esse valor por uma casa de 2,5 mil metros quadrados (e 18 banheiros) erguida em um terreno de 11 mil m² – um símbolo de uma riqueza do passado.
Foi então que o mercado se ajustou, e a incorporadora Mozak, de Isaac Elehep, viu ali uma oportunidade de ouro.

Já habituada a sofrer para achar terrenos na Zona Sul, a empresa comprou a mansão para derrubá-la e depois dividir o terreno para construir 10 casas menores (e ainda assim espaçosas), criando uma rara nova oferta no trecho mais exclusivo do Leblon.
“Você pode chegar com a sacola de dinheiro que for, não existe um outro terreno como esse, nem no Jardim Pernambuco nem na Zona Sul,” o sócio Breno Elehep disse ao Metro Quadrado.
A poucos minutos da orla do Leblon, o Jardim Pernambuco não é um condomínio, mas funciona como se fosse, com cancelas, câmeras e seguranças que controlam os acessos, além de uma associação de moradores que cuida dos assuntos locais.
Contando quem já está lá, são apenas 150 casas no total, e ninguém vai encontrar nenhum anúncio de imóvel à venda na internet.
As casas trocam de mãos sem aparecer nos portais, e os corretores assinam acordos de confidencialidade para fazer vendas. Além disso, pode ser necessário contar com uma indicação de quem já mora na região para conseguir comprar um imóvel.
A oferta nova da Mozak, portanto, chegará ao mercado tal qual um lote extra de poucos ingressos para um show intimista de um artista em sua turnê de despedida.
O projeto da incorporadora será oficialmente o primeiro condomínio fechado do Jardim Pernambuco e foi batizado de Estância Pernambuco.
Mas conseguir os 11 mil m² de terreno no enclave exigiu paciência para a Mozak. A incorporadora passou seis anos negociando a antiga mansão da família Amaral.
As conversas aconteciam praticamente todas as semanas e, quando o negócio se aproximava do fim, outros interessados entraram na disputa, como o pai de Neymar.
Para elaborar o projeto, a Mozak, que até então só havia feito prédios, consultou moradores do enclave, clientes e investidores sobre que tipo de casa comprariam por ali.
A primeira versão do Estância Pernambuco que chegou ao mercado tinha oito casas, com preços entre R$ 40 milhões e R$ 50 milhões. A configuração mudou depois que potenciais compradores começaram a pedir unidades menores e mais “baratas”, de R$ 30 milhões.
“Um deles disse que poderia comprar o projeto inteiro, mas não queria gastar esse valor numa casa no Rio,” Breno disse.
Os oito lotes passaram então para nove e finalmente para 10.
Enquanto o projeto do novo condomínio toma forma no papel, a antiga mansão começou a ser demolida nos últimos dias.
Construída em estilo inglês, o imóvel tinha seis suítes, piscina semiolímpica, jardins de Burle Marx e 15 vagas de garagem, além do único heliponto particular do Rio homologado pela Anac.
Manter tudo isso funcionando exigia uma equipe de mais de 40 funcionários e custava pelo menos R$ 300 mil por mês à família.
Móveis, obras de arte e objetos acumulados pela família ao longo dos anos foram retirados e levados a leilão, incluindo uma tapeçaria de Basquiat e uma coleção de arte e design brasileiros com várias cadeiras de Sergio Rodrigues.
Entre as peças apareceu ainda um busto atribuído ao escultor romeno Constantin Brancusi, encontrado em um quarto que permanecia fechado e levado a leilão com lance inicial de R$ 400 mil.
No projeto da Mozak, os terrenos individuais terão entre 907 m² e quase 4 mil m². Na parte mais alta da propriedade, algumas unidades terão vista para o mar, a Lagoa Rodrigo de Freitas e o Cristo Redentor.
A incorporadora já estuda outras propriedades no Jardim Pernambuco, mas Breno diz que os próximos projetos, caso saiam, terão uma escala menor.




