Em Manaus, os imóveis do Minha Casa Minha Vida preencheram o espaço deixado pelo médio e alto padrão após a crise do governo Dilma e estão dominando o mercado residencial.
O programa habitacional está representando 80% dos lançamentos da cidade, segundo dados levantados pela Brain para a Associação das Empresas do Mercado Imobiliário do Amazonas (Ademi-AM). Doze anos atrás, a proporção era de 50%.
As incorporadoras têm impulsionado os lançamentos para surfar a geração de empregos formais provocada pela Zona Franca, que atrai a população do interior do estado para a capital, gerando uma maior demanda por habitação econômica.
“O trabalhador com carteira assinada tem uma análise de crédito melhor na Caixa do que quem tem renda informal, e Manaus é uma das cidades com o maior percentual de renda formal,” Adriano Nobre, o diretor comercial e de incorporação da Direcional, disse ao Metro Quadrado.
A Direcional chegou a Manaus há 20 anos, quando a dominância do MCMV ainda não era tão grande e havia um mix maior de produtos.
O cenário mudou após a recessão que marcou o governo Dilma II provocar uma crise imobiliária que, por sua vez, levou grandes incorporadoras de médio e alto padrão do Sudeste a saírem de diversas cidades do Norte e Nordeste, incluindo Manaus.
Com isso, outros segmentos encolheram e o mercado concentrou-se cada vez mais no MCMV. Nos últimos 10 anos, as unidades econômicas nunca representaram menos que 60% dos lançamentos, chegando a bater os 100% em 2016 e 2018.
O médio padrão recuperou espaço brevemente durante o início da pandemia, quando os juros estavam no menor patamar da história do País, e passaram a responder por 40% dos lançamentos em 2021, contra 14% no ano anterior.
Mas o número de unidades lançadas pelo segmento voltou a cair nos últimos anos e hoje representa cerca de 20% do mercado.
“A cidade ficou mais pobre? Não. Mas o comportamento do setor industrial mudou pós-Covid. Antes ficavam aqui os executivos, agora ficam os gerentes, supervisores e coordenadores, que não ganham como os executivos,” Hélio Alexandre, vice-presidente da Ademi-AM, disse ao Metro Quadrado.
Alexandre – que é natural de São Paulo, mas chegou a Manaus na década de 80 e fundou uma imobiliária local no final dos anos 90 – disse que a renda de boa parte da população da cidade está limitada aos salários oferecidos pelo distrito industrial e pelo comércio.
A renda domiciliar per capita de Manaus é de R$ 1.484 (abaixo do salário mínimo, de R$ 1.621), enquanto o rendimento médio pago pelas empresas é de 2,8 salários mínimos, segundo o IBGE.
Os valores se enquadram nas faixas 1 e 2 do MCMV, que englobam a maior parte dos empreendimentos lançados na cidade.
A demanda é tão grande que o estoque equivale a apenas 8 meses de venda no segmento econômico, contra 20 meses no médio e alto padrão.
“Se não lançarmos mais empreendimentos econômicos até o final do ano, no ano que vem teremos dificuldades de encontrar produto no mercado,” disse o vice-presidente da Ademi-AM.
Já a Direcional, que é historicamente a maior construtora do MCMV em Manaus, não acredita que vá faltar produto.
“Nos últimos três anos entrou mais um player nacional lá e há algumas empresas locais, então temos fluxo de produtos para atender a procura constante,” disse Adriano Nobre.
A incorporadora já entregou mais de 30 mil unidades na região e diz que Manaus é uma das três maiores praças dentro da operação da companhia – que lançou R$ 3 bilhões e vendeu outros R$ 2,7 bilhões no primeiro semestre.




