Em São Paulo, onde montar um bom terreno já pode exigir anos de conversas com donos de casas, lojas e pequenos prédios, há um tipo de proprietário capaz de levar a negociação ainda mais longe: a Igreja Católica.
Uma incorporadora que buscava terreno na Vila Nova Conceição tentou recentemente comprar uma igreja antiga do bairro para incorporá-la a uma área maior.
A proposta incluía dinheiro e a construção de um templo novo nas proximidades, mas o negócio precisou percorrer uma hierarquia que começou no padre responsável pela paróquia, passou pelo bispo da arquidiocese e terminou no Vaticano.
O padre concordou. O bispo também.
Mas quando a proposta chegou a Roma, a autorização não veio, o CEO envolvido na negociação disse ao Metro Quadrado.
Embora longa, a espera teria feito sentido se o negócio tivesse dado certo, uma vez que São Paulo sofre com a escassez de terrenos em bairros nobres.
Nessas regiões, áreas grandes e nas mãos de um único proprietário ficaram raras, e montar um terreno para um novo prédio muitas vezes significa negociar separadamente com os donos de uma sequência de casas, lojas e pequenos edifícios.
Já as igrejas, os conventos e os colégios religiosos construídos há décadas ocupam terrenos grandes em bairros já bastante adensados – uma combinação cada vez mais rara em São Paulo.
“Está tão difícil encontrar terreno que está valendo a pena esperar mesmo que demore um ano,” disse o CEO que tentou comprar o terreno na Vila Nova Conceição.
Um outro executivo do setor levou cerca de seis meses em cada uma das duas negociações que fez com ordens religiosas.
Em uma delas, a própria Igreja queria vender o imóvel e chegou a promover leilões privados para achar um comprador, mas nem assim o processo foi fácil.
Mesmo com uma proposta de pagamento à vista, a instituição contratou uma avaliação da propriedade, submeteu o negócio ao conselho da ordem e investigou quem estava por trás da empresa.
“Existe todo um compliance para saber quem são os compradores,” disse o executivo.
Um dos imóveis negociados por ele tinha sido uma instituição religiosa no passado, mas estava há décadas sem missas, orações ou qualquer outra atividade do tipo. Ou seja, o espaço já havia sido dessacralizado – diferentemente da negociação na Vila Nova Conceição.
Na visão do executivo, é por isso que terrenos de igrejas em funcionamento dificilmente entram no mercado.
A Igreja Católica e suas ordens acumularam um patrimônio imobiliário grande ao longo do tempo, inclusive com casas, apartamentos e terrenos recebidos em doação, mas boa parte pode gerar renda ou permanecer nas mãos das instituições por décadas, sem tanto interesse em se desfazer deles.
“A Igreja é a maior multinacional do mundo. Ela tem muita renda, e não tem essa cabeça empresarial de maximizar o negócio,” disse ele.




