A pesquisa botânica que moldou a obra de Burle Marx

A pesquisa botânica que moldou a obra de Burle Marx
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Roberto Burle Marx (1909-1994) é o grande inventor do paisagismo brasileiro moderno. 

Ele foi pioneiro em investigar a flora nativa e dar protagonismo à biodiversidade brasileira em seus projetos.

Esta relação entre sua obra e sua pesquisa botânica é a temática central da mostra Burle Marx: Plantas em Movimento, em cartaz até 2 de agosto no Museu Judaico de São Paulo. 

“Diferente das exposições baseadas em projetos, nós procuramos dar ênfase às espécies que o Burle Marx mais gostava de usar. Colocamos uma lupa nessas plantas,” o curador Guilherme Wisnik disse ao Metro Quadrado

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O arquiteto assina a curadoria da exposição ao lado de Isabela Ono, diretora executiva do Instituto Burle Marx.

Apesar de começar com uma linha do tempo da vida de Burle Marx, a mostra não segue uma ordem cronológica. Em vez disso, adota uma perspectiva que destaca a vegetação em todo o percurso.

No salão principal, Wisnik e Ono reuniram imagens de projetos, desenhos, pinturas e gravuras que revelam o vocabulário botânico que Burle Marx construiu desde a juventude.

Essa escolha ajuda a entender a ruptura promovida por ele. Até então, jardins no Brasil buscavam reproduzir referências europeias – principalmente o rigor geométrico francês ou a estética pitoresca e romântica inglesa, pensada para reproduzir a imperfeição da natureza.

Burle Marx foi o primeiro a imaginar áreas verdes construídas a partir de espécies nativas locais, respeitando as características de cada planta, seus habitats e os biomas de origem.

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Essa sensibilidade em relação à natureza foi cultivada desde cedo. Embora tenha nascido em São Paulo, ele se mudou ainda criança para o Rio de Janeiro com os pais, a pernambucana Cecilia Burle e o judeu alemão Friederich Marx.

A família se estabeleceu no Leme, em uma casa com jardim na mesma rua onde vivia o arquiteto e urbanista Lúcio Costa (1902-1998), autor do Plano Piloto de Brasília. 

Da mãe, Burle Marx herdou o gosto pelas plantas e, ainda menino, passava horas cuidando do jardim, hábito que chamou a atenção do vizinho.

“Lúcio Costa via o menino ali no jardim e, de certa forma, decidiu tutorá-lo para se tornar um grande paisagista. Ele foi muito importante para a carreira do Burle Marx,” diz Wisnik.

Na década de 1930, o jovem entrou na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Ele já desenhava e pintava – e chegou até a ser assistente de Cândido Portinari (1903-1962). 

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Pouco depois, começou a trabalhar com paisagismo e passou a colaborar com obras de grandes nomes da arquitetura brasileira, como o próprio Lúcio Costa, Oscar Niemeyer (1907-2012), Gregori Warchavchik (1896-1972) e Rino Levi (1901-1965).

Foi nesse período que consolidou a pesquisa botânica que transformaria seu trabalho.

“Nos anos 1930 e 1940, ele passou a usar a flora brasileira e sul-americana em seus projetos. Ao longo da vida, ele organizou várias expedições para conhecer os nossos biomas. Pegava uma kombi com botânicos e cientistas e partia para a Amazônia, o Pantanal ou a Serra do Cipó,” afirma Wisnik. 

Essas incursões Brasil adentro acabaram compondo um viveiro abrangente com mais de 3.500 espécies localizado em seu sítio em Barra de Guaratiba, no Rio de Janeiro. “Em cada viagem, estudava como cada espécie se relacionava com o ambiente e trazia mudas que plantava em seu sítio,” diz Wisnik. 

Burle Marx passou então a ter um acervo inédito de plantas — várias delas ainda não catalogadas pela ciência na época. Cerca de 30 espécies receberam nomes científicos em sua homenagem, entre bromélias, helicônias, antúrios, filodendros, pacovás e marantas.

A exposição destaca algumas dessas descobertas e apresenta outras predileções dele – como os ipês, palmeiras e algumas suculentas. 

“Ele define uma identidade nacional no paisagismo, mas nunca estabeleceu uma proposta xenófoba. Gostava de algumas espécies exóticas e também incorporava essas plantas vindas de fora em seus projetos,” disse Wisnik. 

Essa visão se tornou fundamental em importantes obras modernistas que ele assinaria ao longo dos anos, como o Eixo Monumental, em Brasília, e o Aterro do Flamengo, no Rio. 

Além de ter criado muitos jardins públicos e privados no Brasil, Burle Marx também assinou projetos de paisagismo na Venezuela (onde teve um escritório por alguns anos), na Argentina, no Chile e em Cuba. 

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Segundo o Museu Judaico de São Paulo, embora ele não tenha seguido a religião do pai, essa abertura ao outro dialoga diretamente com a experiência da diáspora judaica.

“A produção dele instaura uma poética do trânsito e do movimento que encontra ressonância na experiência histórica da judeidade, marcada pelo deslocamento, desafios adaptativos e contínua reinvenção,” diz Patricia Wagner, diretora de Curadoria e Participação do Museu Judaico de São Paulo.

Para reforçar essa narrativa, a mostra ainda exibe dois vídeos com resgates biográficos, entrevistas e registros de expedições do paisagista. Neles, já aparece com clareza uma preocupação ambiental, intrínseca à sua pesquisa, mas ainda visionária para a época.

Para Isabela Ono, o que marca o trabalho de Burle Marx não é apenas sua capacidade de inovação, mas justamente esse compromisso ético com o meio ambiente ao longo de toda a sua trajetória. 

“Burle Marx entendeu o paisagismo como ferramenta para a promoção de cidades mais verdes, plurais e inclusivas,” afirma a curadora. 

Foto no topo: Marcel Gautherot/Coleção Instituto Moreira Salles

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