Escola Panamericana escapa de ‘destombamento’ – uma vitória da arquitetura

Escola Panamericana escapa de ‘destombamento’ – uma vitória da arquitetura
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A Escola Panamericana de Arte e Design, um dos ícones arquitetônicos de São Paulo, escapou de ter o mesmo destino da primeira sede da instituição, demolida em 2021.

No início da semana, o Conpresp votou pela manutenção do tombamento do edifício localizado em Higienópolis e projetado pelo arquiteto Siegbert Zanettini, após uma mobilização popular que reuniu arquitetos, estudantes, moradores e entidades de preservação do patrimônio em defesa da construção pós-moderna, inaugurada em 1998.

A decisão encerra uma disputa que transformou o prédio da Av. Angélica em um símbolo da preservação da arquitetura paulista contemporânea.

“A Escola representa uma luta por um mundo mais equilibrado, mais justo e mais sustentável,” Zanettini disse ao Metro Quadrado.

O imóvel pertence à Keeva Investimentos e Participações, ligada aos herdeiros de Enrique Lipszyc, o fundador da escola.

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A primeira unidade da Escola Panamericana, na rua Groenlândia, foi demolida após a Keeva vender o terreno a uma incorporadora, um ano depois da morte do fundador. O plano era fazer o mesmo com a segunda unidade.

“O prédio da Groenlândia foi ao chão de uma maneira bárbara. É inexplicável como puderam desmontar uma obra de arte,” disse Zanettini. “Foi um golpe contra a cultura da cidade.”

Inaugurada nos anos 1980, a unidade da Groenlândia, nos Jardins, também foi projetada por Zanettini. Lipszyc deu liberdade ao arquiteto (também professor da USP) para desenvolver um projeto arrojado. 

Na ocasião, Zanettini desenhou um edifício erguido com estrutura metálica, algo ainda novo na época, e projetou salas de aula e ateliês integrados que reforçavam a proposta didática da própria instituição. Ele ainda preservou mais de 180 árvores já existentes no jardim.

Nos anos 1990, com a expansão da Panamericana, Lipszyc pediu a Zanettini para projetar uma segunda unidade da escola, desta vez em Higienópolis. 

O novo edifício era ainda mais ousado do que o primeiro. Algumas pessoas chegaram a compará-lo com o Centre Pompidou, de Renzo Piano e Richard Rogers, em Paris. 

Segundo o arquiteto, o edifício conjuga o cuidado do desenho arquitetônico e a precisão da engenharia. Com aço, vidro e estruturas expostas destacadas por cores primárias, o prédio se tornou um marco da paisagem paulistana. 

“Esse não é um prédio comum. Ele é um exemplo da construção com aço no Brasil, um processo construtivo muito limpo e sustentável,” disse Zanettini.

A demolição da primeira unidade em 2021 criou um alerta às associações e grupos ligados à preservação do patrimônio, que começaram a se organizar para tentar proteger o segundo prédio.

Foram essas associações que buscaram o arquiteto para ajudar a dar voz ao movimento.

Aos 91 anos, Zanettini é experiente em mobilizações populares. Nos anos 1990, ele foi o principal porta-voz das associações de bairro da Vila Olímpia e Pinheiros, que pediam a revisão do projeto de expansão da avenida Faria Lima.

O tombamento do prédio na Avenida Angélica foi pedido pela Associação de Proprietários, Protetores e Usuários de Imóveis Tombados (Apito) ainda em 2021. 

Em 2024, o Conpresp avaliou que a construção deveria ser tombada pois possui “características importantes da linguagem pós-moderna e do urbanismo paulistano do final do século 20”.

A Keeva Investimentos e Participações contestou o tombamento, alegando que o projeto não tinha relevância arquitetônica e cultural excepcional. A empresa também questionou o valor afetivo do local para a população.

Foi nesse momento que se intensificou a mobilização dos moradores do bairro em defesa da Escola, com o Coletivo Pró-Higienópolis à frente de algumas das principais iniciativas.

Muitos grupos organizaram encontros e manifestações artísticas que reuniram arquitetos, estudantes e moradores da cidade. 

Ao lado do grupo Urban Sketchers SP, o Coletivo Pró-Higienópolis promoveu um desenhaço em frente ao prédio: um dia em que artistas e moradores registraram suas próprias visões daquela arquitetura.

“Foi um movimento muito bonito ver estudantes, senhoras e senhores desenhando e registrando o prédio,” disse Zanettini, que participou do evento.

Ao longo do processo, outras instituições também manifestaram publicamente seu apoio ao tombamento.

A Docomomo Brasil, organização que trabalha pela documentação e conservação de edifícios, sítios e bairros do movimento moderno, e a direção da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo escreveram ao Conpresp em defesa do edifício. Para eles, o prédio é um exemplar da arquitetura em aço e da estética high-tech em São Paulo.

A ESPM, que desde 2025 assumiu a gestão da Escola Panamericana de Arte e Design, também apoiou a causa. Alguns vereadores da cidade de São Paulo se posicionaram em favor da população, como Eliseu Gabriel e Nabil Bonduki.

Ao lado dos líderes do Coletivo Pró-Higienópolis, Zanettini celebrou cada um dos sete votos a favor da manutenção do tombamento do edifício durante a sessão do Conpresp. 

Ele considera que a decisão favorável é, na verdade, um ganho dos paulistanos. “Eu não acho que foi uma vitória nossa, mas uma vitória da cultura e da cidade de São Paulo. É uma conquista da cultura do nosso País,” concluiu.

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