Aos 77, a dama da hotelaria brasileira está com o pé no acelerador

PORTO ALEGRE — Ao deixar sob aplausos o palco do Fórum da Liberdade deste ano, Chieko Aoki já não parecia ter, como a própria diz, “1,50 metro de altura, de salto” – e muito menos seus 77 anos.
A gigante da hotelaria nacional rememorou as glórias do passado, com histórias que envolvem até o controlador da LVMH Bernard Arnault, e mostrou a vitalidade de quem segue com a caneta na mão: até o fim de 2027, Chieko espera abrir mais oito hotéis da sua rede Blue Tree.
Ela negocia uma volta ao Rio de Janeiro, onde não opera desde 2019, e também enxerga a Amazônia e Foz do Iguaçu como possíveis destinos no turismo de lazer. Cidades ligadas ao agronegócio são outro foco de interesse como oportunidade no segmento corporativo.
Depois do setor hoteleiro nacional atravessar uma década de baixa, pressionado por uma crise econômica doméstica e pela pandemia, o País recebeu um recorde de 9,3 milhões de turistas estrangeiros no ano passado – o que animou os investidores.
“O capital para o setor hoteleiro sempre foi limitado, e nos últimos anos esteve muito concentrado em segmentos como short-term rentals (Airbnb e afins) em que eu não quis entrar,” a empresária disse ao Metro Quadrado. “Agora estamos ativos no mercado e buscando oportunidades.”

Esta não foi a primeira crise que a Sra. Aoki (como é chamada com deferência no setor) atravessou e superou.
Nascida em 1948 em Fukuoka, no Japão, Chieko imigrou aos seis anos para o Brasil com os pais, e aprendeu rapidamente o português para auxiliar a família no processo de adaptação ao País.
Em São Paulo, estudou na rede pública e cursou Secretariado na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap) antes de se formar em Direito no Largo de São Francisco.
Por essa altura, conheceu o empresário japonês Hiroyoshi “John” Aoki, que tocava a empreiteira Aoki Corporation e eventualmente expandiu suas atividades para o ramo hoteleiro investindo na bandeira Caesar Park.
Os dois se casaram, e Chieko foi convidada pelo marido a assumir o comando das operações da marca em 1982, que até então tinha hotéis na Rua Augusta, em São Paulo, e em Ipanema, no Rio.
A empresária estudou gestão hoteleira na Universidade de Cornell, nos EUA, e, nos anos que se seguiram, o negócio de hospitalidade da Aoki Corp. explodiu. Surgia a “dama da hotelaria brasileira”.
Além de expandir a Caesar Park globalmente, a empresa comprou a tradicional rede americana Westin em 1988, adicionando 65 hotéis ao portfólio e aumentando (e muito) as responsabilidades de Chieko.
Uma reportagem de 1989 do New York Times apresenta a executiva como a nova presidente da Westin e relata que a sua missão era dobrar o estoque de hotéis da marca em dez anos.
“Temos um plano estratégico bastante agressivo,” a Sra. Aoki disse a jornalistas na época. “Nossa missão é ambiciosa, mas alcançável.”
O conglomerado chegou a ser dono dos lendários hotéis Algonquin e Plaza em Nova York, tendo vendido o segundo para Donald Trump por US$ 390 milhões.
Da época de expansão, Chieko se lembra com carinho do antigo Caesar Park Penha Longa, em Sintra, Portugal, hoje operado pela Ritz-Carlton.
Construído pela Aoki Corp. em 1992, o empreendimento foi comprado este ano pela L Catterton, a firma de private equity apoiada pelo bilionário francês Bernard Arnault, por € 180 milhões.
“Nós construímos este hotel com know-how, operação e profissionais brasileiros e, 30 anos depois, ele segue quase inalterado e acaba de ser vendido novamente,” ela disse no Fórum da Liberdade.
Chieko precisou vender a Westin, o Penha Longa e outros ativos na virada do século, depois de uma crise econômica no Japão derrubar a Aoki Corp. e de seu marido sofrer um AVC.
Sem tempo para lamentos, ela fundou a operadora de hotéis Blue Tree em 1997, buscando manter o serviço de excelência que prestava nas redes de luxo que liderou, mas com preços mais acessíveis.
Ela conta que combinou a disciplina japonesa e a hospitalidade brasileira para desenvolver uma equipe que vestisse a camisa da empresa e que tivesse um nível de execução tão bom que inspirasse outras hoteleiras e prestadoras de serviços.
“Acredito que é preciso receber, servir e, principalmente, cuidar bem dos clientes,” disse Chieko.
A atenção ao detalhe e à cultura da empresa renderam à Sra. Aoki uma fama de “brava” na indústria, disse um executivo do setor hoteleiro, mas a empresária não foge da responsabilidade.
“Sou exigente e minha régua continua subindo sempre. Não temos que melhorar a execução porque eu (a chefe) estou vendo, mas para os clientes. Se a gente se acomoda, a qualidade diminui,” ela disse ao Metro Quadrado.
Dessa inquietude surgiram inovações copiadas ao redor do globo, como o autosserviço de cafezinho no lobby para clientes sem tempo de ir ao restaurante do hotel – e sua segunda grande rede hoteleira.
Em 2013, a Blue Tree era a quarta maior operadora do Brasil, com 24 hotéis sob gestão e planos de chegar a 45 até 2016. Aí vieram a crise financeira que assolou o País e a pandemia da Covid-19.
“A Chieko sangrou como toda a indústria hoteleira nacional, e sem o amparo externo que as redes internacionais tinham,” afirma um gestor que acompanha o setor.
Os planos de expansão não puderam ser cumpridos, mas a hoteleira conseguiu ao menos manter o número de ativos sob gestão estável durante o período turbulento.
Como a Blue Tree não divulga seus resultados, o gestor diz ter dúvidas sobre o impacto do período de vacas magras na saúde financeira da empresa e no seu nível de endividamento. Chieko diz que está pronta para voltar a investir.
“A hotelaria está muito ligada aos empreendimentos imobiliários e, nos últimos anos, surgiram novos modelos que não faziam sentido para mim. Agora estamos bem financeiramente e avaliando oportunidades de mercado,” disse Chieko. “Um bom empreendedor precisa ter planejamento de longo prazo.”
Há também quem opine que, devido à sua longa trajetória no mercado, a Sra. Aoki deveria anunciar um plano de sucessão ou até pensar em uma venda da Blue Tree num futuro não muito distante. Felipe Nishimura, um sobrinho de Chieko, é diretor da empresa e visto como um dos seus possíveis sucessores.
“Nos últimos anos a Blue Tree perdeu alguns hotéis importantes e deixou de participar das concorrências pelos principais projetos,” disse outro executivo do mercado.
A empresária dá de ombros.
“Eu tenho um plano de sucessão, só não o revelo. A minha equipe já toca o dia a dia da operação, mas eu sou acelerada, a agenda cheia me tira da cama às 6h da manhã,” disse. “Eu visito os nossos hotéis todos os dias, porque é muito gostoso.”
A Blue Tree administra 22 hotéis (e 4 mil quartos) espalhados pelas cinco regiões do País, entre endereços urbanos e resorts. A última abertura foi no fim do ano passado em Sorriso, no Mato Grosso.







