SALINÓPOLIS – As praias do Pará raramente aparecem entre os destinos mais buscados do litoral brasileiro, mas se tornaram a nova aposta de um dos maiores grupos imobiliários do País.
A GAV Resorts, a vertical de hotelaria da família Pereira, a dona da Brasil Terrenos, está construindo há oito anos um complexo de resorts que já se tornou o maior do País.
O projeto fica em Salinópolis e acaba de entregar duas novas torres, que somam 770 quartos e fizeram o complexo chegar a um total de 1.978, superando enfim a Costa do Sauípe, na Bahia, com 1.564, até então o líder do ranking.
O complexo busca suprir uma demanda de viagem dos próprios paraenses e de moradores de estados vizinhos.
Salinas, como a cidade é apelidada, fica a quatro horas de carro de Belém. Suas praias, banhadas pelo Atlântico, possuem areias brancas e são rodeadas por dunas e áreas de preservação ambiental.
O acesso foi facilitado pela melhora das estradas e por novas rotas de saída de Belém, como a Avenida Liberdade, construída para a COP30.
Ao mesmo tempo, a alta das passagens aéreas nos últimos anos, assim como a falta de voos, dificulta passear em lugares mais distantes, como o Nordeste.
“Salinópolis teve um boom absurdo no pós-COP. Muita gente que não sabia para onde ir ou o que fazer acabou procurando ali uma segunda residência,” Emmanuel Athayde, o vice-presidente do Sinduscon-PA, disse ao Metro Quadrado.
“O mercado imobiliário de Salinópolis teve uma profissionalização forçada e muito acelerada,” afirma.
A cidade, de 49 mil habitantes, vive um momento de mudança de seu eixo imobiliário, com novos projetos perto da Praia do Atalaia, a 20 minutos de carro do centro.
Foi ali que a GAV construiu quatro resorts, lado a lado. O primeiro, Salinas Park, abriu em 2018. Depois, vieram outros dois, em 2021 e 2022, e agora as duas torres do GAV Beach, que foram feitas mais altas, com 17 andares, para aumentar a capacidade e otimizar o terreno.
Os edifícios se destacam em um entorno de casas e prédios baixos, muitos deles com placas de aluguéis de temporada.
“As pessoas de classe média e classe média baixa da região metropolitana de Belém viam os amigos mais ricos indo pra Salinas e sonhavam em ir também,” Manoel Vicente Pereira Neto, o CEO da GAV, disse ao Metro Quadrado.

Acostumado a comprar e vender terrenos no interior do País, ele viu uma oportunidade.
Com a Brasil Terrenos, a família Pereira atua no setor imobiliário desde 2003, fazendo principalmente loteamentos de condomínios. O negócio começou no sul do Pará, mas a sede hoje é em Goiânia e a empresa atua em 20 estados.
Em 2014, a família criou a GAV para investir no setor hoteleiro, e teve um forte crescimento. Cinco anos após a criação, em 2019, a empresa vendeu cerca de R$ 400 milhões em imóveis. No ano passado, já foram R$ 3 bilhões.
Além de Salinas, a GAV tem resorts em Gramado, Porto de Galinhas e Pirenópolis, além de outros sete projetos no pipeline. A próxima entrega será no Preá, no Ceará, no final deste ano.
A empresa aposta forte no modelo de multipropriedade, voltado principalmente a famílias com crianças. O GAV Beach tem áreas de brincadeiras para todas as faixas etárias, além de spa, salão de beleza e um espaço pet. Até dois animais são permitidos por hospedagem.
No feriado de Finados, o resort ficou cheio, não apenas com o público de Belém, mas com viajantes de estados próximos, como Maranhão e Amapá, que relaxavam nas piscinas ao som de apresentações de carimbó e de samba.
No espaço, há bastante atenção aos proprietários de unidades, que possuem atendimento separado na recepção e recebem descontos em comidas e bebidas. Há, inclusive, alguns itens do cardápio dedicados a eles, como a Corvina do Multiproprietário.
A GAV tem um modelo de intercâmbio. Assim, quem possui uma unidade em Salinas, por exemplo, pode trocar seu direito de uso com o dono de um quarto em Gramado, para que ambos visitem cidades diferentes.
Além disso, há estímulos para que o dono de uma unidade invista em outros destinos. Pelo resort, vendedores puxam conversa com os visitantes. Se o papo evoluir, os interessados são levados a uma sala atrás da recepção, onde corretores fecham os negócios ao som de aplausos e com direito a taças de espumante.
Ricardo Mader, o diretor de hotelaria da JLL no Brasil, avalia que o modelo de intercâmbio da GAV ajuda a empresa a crescer, especialmente por ter opções variadas de destinos.
Ele também aponta que o alto número de quartos aumenta o retorno do investimento na construção, e que a opção de encontrar tudo o que se precisa nas férias em um só lugar atrai as famílias que querem menos preocupações.
“O Brasil vai aos trancos e barrancos, mas a renda aumenta e as pessoas estão gastando mais com férias,” ele disse ao Metro Quadrado.
Athayde, do Sinduscon-PA, avalia que Salinas deve seguir crescendo, embora o governo local precise de apoio para lidar com os desafios de receber um aumento grande de turistas em pouco tempo.
“A cidade precisa de uma revisão do Plano Diretor. Existem áreas com acelerada ocupação imobiliária que sequer constam em mapas da legislação municipal,” afirma.
Manoel, da GAV, diz que não pretende erguer mais quartos em Salinas por ora, mas quer investir na construção de um shopping e um centro de convenções na entrada dos resorts, onde hoje há uma feirinha, de modo a atrair viagens corporativas.
Em 2027, a empresa entregará outros 1.000 quartos e apartamentos em Gramado, Maragogi e Barra de São Miguel (Alagoas). Por ora, no entanto, novos lançamentos estão sendo avaliados.
“Dependendo do que acontecer com o dólar, o turismo brasileiro pode até dar uma fortalecida, mas o cenário de alta de juros e de incerteza nos faz ter um pouco mais de pé no chão, de segurar o investimento até saber o que vai acontecer,” disse.




