Opinião/ Para que vão servir os escritórios na era da AI?

Existe uma inquietação que tem permeado praticamente todas as mesas de decisão estratégica nos últimos meses.
A ascensão vertiginosa da inteligência artificial e da automação trouxe consigo o receio de que o esforço humano perca a utilidade em diversas tarefas cotidianas.
Se a tecnologia está assumindo a gestão das planilhas, a organização dos dados e os processos lógicos, qual o propósito do escritório?
A resposta para essa pergunta exige que abandonemos as suposições e olhemos para a realidade dos dados globais e do comportamento humano.
No pós-pandemia, as pessoas estão voltando aos escritórios, mas com uma motivação radicalmente diferente das décadas passadas.
À medida que a AI automatiza grande parte das tarefas operacionais, cresce a importância das atividades humanas que não podem ser replicadas por algoritmos como colaboração, negociação, criatividade, coesão cultural e tomada de decisão coletiva.
Por isso, uma pesquisa da CBRE revela que a colaboração com os colegas é o principal motivo para a ida ao escritório, citado por 68% dos respondentes.
O espaço corporativo abandonou o seu papel histórico de centro de processamento de tarefas individuais, no qual os profissionais se isolavam em suas baias, e assumiu, em definitivo, a vocação de hub de inovação, mentoria e construção de cultura.
Com isso, o desafio prioritário das corporações hoje é criar destinos atrativos, e não apenas dispor estações de trabalho. Trata-se de desenhar ambientes que priorizem experiências e fomentem o senso genuíno de comunidade.
Um outro dado interessante que corrobora com esse novo uso do escritório é a preferência por Activity-Based Workplace (ABW), uma estratégia de design de escritório e cultura organizacional que oferece aos funcionários uma variedade de ambientes de trabalho, cada um projetado para uma tarefa específica, em vez de uma mesa fixa atribuída.
Esta realidade cresceu de 17% (2024) para 40% (2026), enquanto modelos focados apenas em concentração caíram de 71% para 42%.
A AI se revela como co‑trabalhador, exigindo redesenho de ambientes e papéis, reforçando uma redefinição do trabalho e, portanto, uma adaptação contínua. Neste contexto, empresas têm entendido que, com a AI assumindo tarefas mecânicas, o escritório se torna o espaço do trabalho estratégico, requalificando seu propósito.
O que observamos nos principais mercados corporativos globais — incluindo São Paulo — é a materialização desse movimento.
Empresas estão elevando significativamente seus investimentos em workplace, disputando espaços de alta qualidade para a instalação de seus novos escritórios, bem localizados e inseridos em regiões com ampla oferta de amenidades, como centros comerciais, gastronomia, academias e serviços variados: 57% valorizam cafés e restaurantes no entorno como amenidades mais relevantes.
Além disso, há uma priorização clara por locais que reduzam o tempo de deslocamento, tornando a ida ao escritório mais conveniente e atraente.
É exatamente neste ponto de inflexão que a inteligência artificial entra como uma aliada estratégica formidável.
Um outro relatório da CBRE destaca que a AI atua hoje como o novo sistema operacional do edifício, uma infraestrutura invisível que otimiza a experiência humana.
Essa inteligência embarcada antecipa as necessidades dos ocupantes, ajustando, por exemplo, a climatização com base na ocupação real, gerenciando as reservas de espaços de forma fluida e garantindo que o ambiente responda aos padrões de uso com foco em hospitalidade e sustentabilidade.
A máquina cuida da eficiência energética e operacional para que as equipes encontrem o cenário perfeito para criar.
Com o uso de displays de altíssima resolução, câmeras com rastreamento inteligente e acústica adaptativa, os participantes remotos e presenciais passam a ter a mesma presença e voz nas decisões estratégicas. A fricção técnica desaparece, dando lugar a interações humanas sem barreiras.
Nesse cenário, o movimento de flight to quality ganha um contorno inteiramente novo e sofisticado.
As empresas de ponta buscam ativos imobiliários nos quais a infraestrutura tecnológica resolve grande parte da complexidade do prédio.
Com o operacional automatizado, as pessoas ganham tempo e liberdade para focar naquilo que os algoritmos ainda não conseguem replicar: o pensamento analítico complexo, a criatividade não linear e a liderança empática.
Marcos Cesar é diretor de Ocupantes Brasil e Contas Corporativas LATAM na CBRE.







