Se o Centro do Rio voltar a ser um lugar pujante de negócios, um dos maiores beneficiários deste turnaround improvável será o empresário Daniel Leão.

A Construtora Internacional – fundada por seu avô e há 30 anos dirigida por ele – começou a fazer retrofits de prédios corporativos na região ainda no fim da década de 80, muito antes do programa Reviver Centro, criado em 2021 para revitalizar a área.
Há mais de 30 anos, a Internacional só opera nesse segmento, tornando o Centro do Rio uma espécie de aposta all-in.
No mercado, alguns chamam Daniel de “louco” por seguir essa estratégia, mas ele está cada vez mais confiante na retomada do mercado de escritórios ali.
“Quem tiver um prédio pronto na prateleira vai ser procurado,” ele disse ao Metro Quadrado.
Ao longo de sua história, a Internacional já fez 26 retrofits, todos no segmento corporativo, e mantém 22 deles em carteira.
O mais recente é o Edifício Aliança da Bahia – ao lado do Palácio Gustavo Capanema (ocupado por diversos órgãos federais) e perto da antiga sede da Vale – que custou cerca de R$ 140 milhões entre a aquisição e as obras.
Daniel está em conversas avançadas com pelo menos duas grandes empresas de energia para ocupar parte do edifício, que tem 16 andares e 1.000 metros por andar.
A Internacional é um dos maiores investidores do mercado imobiliário da região – ao lado de nomes como Celso Bogorotty, a GTIS e a São Carlos.
O Aliança da Bahia está sequer alugado e Daniel já fez uma nova aposta: acaba de comprar do Bradesco a antiga sede do Banco Boa Vista, um corporativo projetado por Oscar Niemeyer.
Localizado na Praça Pio X, em frente à Igreja da Candelária, o edifício vai receber investimentos de R$ 100 milhões para modernizar seus 12,5 mil metros quadrados antes de ser recolocado no mercado. (São 13 andares com 800 metros quadrados cada).
O portfólio da Internacional soma cerca de 180 mil m², sendo que 60% disso (12 prédios) estão no Centro e seus arredores – lugares como São Cristóvão, Rio Comprido, Lapa e Estácio.
“Eu vejo o Centro como a melhor oportunidade de metro quadrado hoje, porque ainda está a um preço extremamente acessível. E é questão de tempo até a região voltar,” disse Daniel.
A taxa de vacância do Centro do Rio ainda é elevada (e chega a 40% no portfólio da Internacional), mas já é possível perceber sinais de recuperação, com um maior interesse de empresas pelos prédios que estão sendo construídos ou reformados – seja em busca de áreas maiores ou aluguéis menores que os da Zona Sul.
Enquanto no Centro o aluguel mensal médio pedido num Triple-A é R$ 96/m², na Zona Sul os imóveis classe A pedem R$ 320/m², de acordo com dados da Newmark.
A Dataprev, por exemplo, assinou recentemente um contrato para transferir sua sede para o Ventura Corporate Towers, enquanto o Nubank acaba de locar cinco andares (7.000 metros quadrados) no Edifício Vista Mauá, na Rua São Bento, próximo à Praça Mauá.
A retomada da região tem sido possível graças a um esforço coordenado entre o Poder Público, com iniciativas como a do Reviver Centro, e o setor privado.
“Existe hoje um consenso de que o Centro precisa ser mobilizado, incentivado e reativado. E o Centro só está voltando porque há um conjunto de ações acontecendo ao mesmo tempo,” disse Marcelo Haddad, presidente da Aliança Centro, uma organização que reúne proprietários de mais de 300 prédios na região.
Para Daniel, o movimento está só no começo. “Alguns prédios da Zona Sul são mais arrojados e com lajes maiores, mas já estão todos lotados. Isso tudo está fazendo com que a demanda do Centro volte a ficar no radar.”
Fundada em 1959, a Internacional começou fazendo incorporações e obras públicas, mas mudou o foco para o retrofit para ficar longe dos riscos de lidar com o setor público.
Além disso, “o nível de exigências e de burocracia para aprovação de um retrofit é muito menor do que fazer um prédio do zero,” disse Daniel.
Embora o Reviver Centro esteja ajudando Daniel ao incentivar a revitalização da área, sua empresa tem ido na contramão da proposta do programa.
A Internacional mantém o perfil corporativo dos prédios, enquanto o Reviver Centro estimula as incorporadoras a converter comerciais em residenciais em troca de potencial construtivo em outras regiões da cidade.
O prédio do Boa Vista, a princípio, não estava na wish list da Internacional, mas entrou no radar porque Daniel o considerou uma oportunidade atraente em termos de preço e potencial de recuperação.
Além da assinatura de Niemeyer, o prédio preserva alguns dos elementos que ajudaram a transformá-lo em uma referência da arquitetura moderna carioca.
Na fachada, há um painel de Paulo Werneck, enquanto o interior do prédio foi adornado por muitos anos com A Primeira Missa no Brasil, pintada por Candido Portinari no mesmo ano da inauguração do edifício, em 1948.




